Ela era prostituta, politizada, militante dos direitos da categoria. Uma puta cidadã (e vice-versa). Por isso, não titubeou quando teve que informar a profissão ao funcionário do cartório:
- Profissional do sexo – ela disse, como quem diz o dia da semana.
O funcionário ouviu, mas achou melhor fingir que não:
- Como?!?
- Profissional do sexo – ela repetiu, com firmeza.
O funcionário, com ar malicioso, pediu confirmação:
- Isso é aquilo que eu estou pensando?…
- Eu não sei o que o senhor está pensando!, ela respondeu, desafiadora.
O funcionário, visivelmente perturbado, foi atrás de um superior. No caso, superiora. A chefa veio até a moça e repetiu a pergunta; a moça repetiu a resposta. A chefa respirou fundo e afinal perguntou:
- Profissional do sexo é …prostituta?
- É, respondeu a profissional, já meio puta (ou mais puta, digamos).
- Ah, bom; – disse a chefa, satisfeita por ter resolvido o impasse. Para logo depois perceber que o problema não estava resolvido:
- Ah, mas isso não consta da relação oficial de ocupações do ministério do trabalho, vamos ter que colocar outra coisa… vamos ver… cabeleireira? – sugeriu a chefa.
- Tá, tá bom. – concordou a puta, resignada.
- Então a senhora também é cabeleireira?, quis saber a chefa, animada por descobrir uma segunda ocupação da moça. Que já irritada com a situação, respondeu:
- Ah, uma coisa eu garanto: faço barba, cabelo e bigode!
Helena Costa
* História verídica
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