Novembro 05, 2007
Outro dia, num papo-de-bar, me perguntaram o seguinte: “você, que gosta de governantes latino-americanos, o que acha do Hugo Chavez?”
A conversa acabou sendo levada para outros rumos, como costuma acontecer em mesas de bar, mas a provocação estava feita. E o pensamento, vocês sabem, só precisa ser cutucado para despertar e começar a viajar.
Antes de me concentar na resposta, quero só fazer um comentário sobre a pergunta: que delícia ser classificada como uma pessoa que “gosta de governantes latino-americanos”, vocês não acham?
Bom, em relação ao Chavez, me assusta a quebra institucional promovida pelo todo-poderoso da Venezuela. Esse terreno é pura areia movediça: começa com uma pequena concessão aqui, outra ali, em nome de uma boa causa, de um ideal válido, e quando a sociedade se dá conta, não tem mais um presidente e sim um mandatário. Daí para a ditadura personalista é um pulinho. Nesse sentido, acho o rumo que Chavez está tomando bastante perigoso para a instável história das democracias latino-americanas – e extremamente constrangedor para a esquerda social-democrata de modo geral.
Porém… (ah, porém!)
Vocês já viram fotos representando a visão da mosca? Elas não enxergam apenas uma imagem completa, e sim um mosaico. Então, lançando um certo “olhar de mosca” sobre a questão, digo que apesar de tudo isso me interessa ouvir uma voz dissonante. É instigante observar (claro que da posição mais confortável: do lado de fora) uma sociedade tentar estabelecer novas formas de organização, “fora da nova ordem mundial”. Já que estamos falando de América Latina, é um tanto assustador constatar que somos, desde sempre e ainda, muito mais dependentes do modelo norte-americano do que poderia ser considerado saudável. Levando esse pensamento para passear, fico de fora tentando compreender como será estar lá dentro, quais as características peculiares da Venezuela que levam a sociedade venezuela a se moldar daquela maneira; por que motivos específicos, que só quem está lá conhece, um Chavez é criado, nutrido, engendrado – porque nesse ponto eu não alimento ilusões: cada país tem o governante que precisa, ou, indo além, que deseja.
Um parênteses (des)necessário: lembro de quando assisti a um show do Caetano Veloso, bem no início dos anos 1990, ou seja, logo após a redemocratização do Brasil. Là pelas tantas, antes de tocar “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, composta por Roberto Carlos em homenagem a ele, Caetano falou um pouco sobre a experiência do exílio. E disse que uma das coisas que mais o angustiava naquele momento era constatar que a ditadura era algo que vinha ‘de dentro das entranhas do ser do Brasil’, ou algo equivalente, em puro caetanês. Mas o pior é que era verdade.

E já que estamos falando disso, mudo de assunto permanecendo no mesmo tema. Nesses dias que passei em Buenos Aires no mês passado, me chamou a atenção a total ausência de pichações/grafitis nos muros. Só existem protestos, por toda a cidade, contra tudo e contra todos. As mais emblemáticas são as da Catedral da cidade, onde se vêem frases defendendo o aborto livre e gratuito e acusações de cumplicidade com o genocídio, em referência ao ex-capelão da polícia argentina, condenado recentemente por compactuar com as práticas de tortura perpetradas pela ditadura daquele país – na minha opinião, o maior absurdo da história recente da Igreja Católica, pior até do que os escândalos envolvendo padres pedófilos. A questão que fica é: como é possível que uma sociedade com esse grau de politização faça escolhas tão esdrúxulas na hora de eleger seus governantes? Está aí a prova de que as tramas sociais não são tão lineares quanto muitos gostam de pensar… e nem tudo pode ser explicado por relações de causa e efeito simplistas.
***
Só um último comentário, desta vez sobre o Brasil: a adesão a essa homogeneização política a que me refiro, particularmente nos países mais orbitais à hegemonia estadunidense, é, na minha opinião, o grande problema dos governos de Lula. Ao entrar no Palácio do Planalto, durante a campanha eleitoral, e participar, junto com Fernando Henrique e seu candidato José Serra, Lula deu uma importante demonstração de que não pretendia promover a temida quebra institucional – o que por si, claro, é válido. No entanto, ali ele assumiu uma divisão interna que até hoje não foi resolvida. Foi eleito por uma maioria que aprovou o gesto de conciliação, e não sabe a quem deve fidelidade: a quem o elegeu ou a quem vota nele há 20 anos. Há uma diferença entre votar e eleger, que fique claro. Nesse caso, o eleitorado quer a continuidade; os votantes, no entanto, continuam desejando o que sempre desejaram: ruptura. Ficou a dúvida drummondiana: e agora, José?
-Monix-
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