E então nosotras fomos ver o show do Gilberto Gil no Teatro Municipal, mais uma vez graças à gentileza de uma leitora que nos presenteou no dia do aniversário do Dufas.
Eu acho o Gil um dos maiores gênios de uma geração rica em genialidades. Mas nem sempre foi assim. Quando comecei a me entender por gente e formar meu gosto musical, lá pelos anos 1980, eu era uma mocinha muito metida a intelectual e me encantei perdidamente pela complexidade vanguardística de Caetano Veloso. Eu pensava em Gil como alguém que entregava diversão, em canções tipo Punk da Periferia, enquanto Caetano produzia pérolas como O Quereres, Outras Palavras, Língua. Caetano era ‘cabeça’, Gil era pop (ou seja, menos interessante).
Até que fui estudar o movimento Tropicalista para meu trabalho de conclusão de curso da graduação, e eis que descobri que Caetano tinha Gil em tão alta conta que chegou a ameaçar abandonar a carreira musical se ele não voltasse a compor e cantar. Isso chamou minha atenção e a partir de então comecei a prestar muita atenção à sofisticação sutil deste “outro” baiano.
As canções de Gilberto Gil têm sempre várias camadas. Eu estava parando na primeira. Quando comecei a desdobrá-las, me apaixonei por sua obra e descobri que sim, trata-se de um gênio.
Sua vida é também muito interessante, e é ela que está sendo comemorada com este show batizado lindamente de “Gilberto Gil Sinfônico – Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo”. Os 70 anos do artista incluem alguns desvios de rota, como o ano em que ele se formou administrador de empresas e foi trabalhar em uma multinacional, em São Paulo. Alguém duvida que teria sido o primeiro CEO negro do Brasil? Mas ele tomou outra bifurcação, foi ser astro da música, e se tornou o melhor ministro da Cultura que o país já teve. Ou seja.
O show é de uma delicadeza ímpar, a emoção transbordando do palco para a plateia, que apesar de calorosa foi respeitosa, reverente. Não foi um show de um artista jovem, com músicas para dançar e pular e aplaudir e gritar. O repertório, escolhido cuidadosamente para refletir seus 50 anos de carreira, trouxe canções especiais, algumas pouco conhecidas, outras novas. O virtuosismo do Gil instrumentista e sua incrível capacidade vocal, aos quase 70 anos, comoveram a todos, inclusive a ele mesmo.
O espetáculo foi gravado e em breve será lançado um DVD comemorativo, com direção de Andrucha Waddington. Só digo uma coisa: comprem.
Monix, com um agradecimento especial à querida Geide
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Foi realmente um show inesquecível, por todos os motivos! Viva Gil!!!
Mônica, eu ainda tenho em algum lugar em casa o trabalho sobre Tropicalismo X Titãs que eu, você, o Flávio e o Ricardo fizemos para o Messeder… O Gil, a meu ver, tem toda a complexidade intelectual do Caetano, com uma vantagem, que é a espiritualidade. Mas me diga, a voz dele anda em dia? Porque das últimas vezes que o vi ao vivo achei que não estava 100%. Beijão.
É, eu devo ter esses trabalhos também, tanto o de Cultura Brasileira (era essa a matéria? nem lembro) quanto a monografia que eu e Ric fizemos depois.
A voz do Gil me chamou a atenção. Ele cantou lindamente, o tempo todo, impressionante para um homem de 70 (!!!) anos.