Mais vinte

Junho de 1992: eu era uma universitária, meio intelectual meio de esquerda, e achei linda toda aquela movimentação de líderes mundiais, empresas e ONGs acerca de temas que eu achava tão interessantes e ao mesmo tempo tão desprestigiados – a gente falava em ecologia, conservacionismo, meio ambiente e desenvolvimento sustentável e todo mundo acionava o alerta-bicho-grilo. (Quando eu fui abraçar a Lagoa, em 1986, ou quando falava contra usinas nucleares, meu pai resmungava e suspirava, provavelmente esperando o dia em que eu ia crescer e superar aquela fase meio maluquete.)

Naquela época, falar em reciclagem era quase falar com as paredes. Me lembro de acumular pilhas e pilhas de jornais (e papeis em geral) e levar para um posto de coleta que existia na praça da rua Farani, atrás do EcoMercado, onde havia conteiners com os símbolos adequados para papel, plástico, metal e vidro. Até eu me achava meio ET por fazer isso. Trabalhava com minha tia, e quando ela sugeria aos clientes fazer alguma publicação em papel reciclado, a ideia sempre era reprovada por causa do alto custo.

Vinte anos depois: a gente fica achando que nada mudou, que ninguém (ainda) dá importância às questões ambientais, que o efeito estufa vai acabar com o mundo por causa dos automóveis bebedores de gasolina dos Estados Unidos e tudo mais. Mas aí começa a Rio+20, e eu fico pensando que: minha cidade tem coleta seletiva de lixo há muitos anos; um filme sobre o aquecimento global foi produzido por um ex-vice-presidente dos mesmos Estados Unidos, e foi um sucesso de bilheteria no mundo todo; bancos e grandes corporações adotam papel reciclado em suas publicações; “desenvolvimento sustentável” virou “sustentabilidade” e isso é tema até de disciplina de uma pós-graduação em Comunicação; a empresa que não tem um programa de responsabilidade social hoje em dia não é considerada séria e isso tem impacto até na relação com os acionistas, por exemplo; a organização em que eu trabalho ocupa dois escritórios, no Rio e em São Paulo, e ambos os prédios têm programas ambientais (um tem certificado LEEDS e o outro, reciclagem de água e convênio com catadores de papel). Enfim, um monte de exemplos que mostram que sim, em vinte anos muita coisa mudou, e para melhor.

É que vinte anos é bastante tempo – embora do ponto de vista da História, com H maiúsculo, não seja nada. E entre 1992 e 2012 o mundo teve tempo para mudar devagar, nas pequenas e nas grandes coisas. “Pensar globalmente, agir localmente” deixou de ser um slogan criativo de um partido verde e passou a ser uma daquelas coisas que a gente faz sem sentir.

Ainda falta muito. Mas acho legal não precisar mais explicar que separar o lixo não é coisa de bicho-grilo, e que falar em meio ambiente não é (apenas) defender bichinhos e atravancar o progresso.

-Monix-

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4 Respostas

  1. Monix, vc é uma otimista! E eu admiro isso em vc! :P

  2. Monix, vc é uma otimista! E eu admiro isso em vc! [2]
    Porque a “consciência ecológica” do povo que tá montado as barracas no aterro meio que me impressiona.

  3. Fico vendo que meu filho de 11 anos com um olhar tão bacana sobre essas questões que me encho de esperança! :-)

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