Carro da discórdia

8h30 da manhã. O vagão do Metrô, vazio. As mulheres se acomodam nos bancos laterais, e ainda assim sobram lugares. O meio do vagão permanece completamente desocupado.

Alguns homens distraídos entram no vagão e o segurança do Metrô informa: tem que sair, neste horário o carro é exclusivo para as mulheres.

Um deles está visivelmente irritado. Alto. Mais de 50, menos de 60 anos. Atravessa o vagão, contrariado, e bate a cabeça na alça que pende do teto da composição. O trem é novo, modelo moderno, por isso ele consegue mudar de vagão sem precisar sair para a plataforma.

As portas se fecham, e dez segundos depois o homem está de volta. Senta-se em um dos muitos bancos vazios, de braços cruzados e cara fechada. Nenhuma das mulheres parece se importar muito.

***

Essa historinha verídica, que aconteceu ontem de manhã, ilustra bem o desconforto causado por uma lei estadual absurda, como já foi muito bem explicado aqui pela Helê.

O carro das mulheres faria sentido, se é que poderia fazer algum, em um metrô superlotado, com vagões separados, cenário em que abusos podem ocorrer – e ainda ocorrem, muito, sem que ninguém fique sabendo, sem que os agressores sejam punidos, sem que as vítimas sejam ouvidas.

Mas em um trem completamente vazio, em que os vagões se comunicam internamente, qual é o sentido de se manter o confinamento das mulheres em um vagão exclusivo? Se não tinha cabimento antes, agora menos ainda.

O segurança do Metrô está apenas fiscalizando o cumprimento de uma lei. Não vejo nada de errado nisso. Errada está a lei, que foi criada sob falsas premissas e portanto obviamente apresenta uma solução completamente equivocada.

***

O que nos leva à questão da representação feminina na política. Precisamos de mulheres legislando sobre as questões que impactam outras mulheres. Não basta ter uma presidenta, é preciso ter bancadas femininas representativas. Não adianta ter parlamentares bem intencionados, ou veremos eternamente os tiros saindo pela culatra: ao invés de conscientizar os agressores e protegermos as vítimas, teremos sempre, somente, cada vez mais, homens emburrados porque são impedidos de entrar em um vagão – sem que nenhuma lógica sustente essa proibição.

-Monix-

Tatuado

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(via IDEAS#24 – Miscellaneous)
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(paintedrabbit: Taken with Instagram at Adrenaline Tattos and Piercing)

Da Série “Coração”

Helê

Solidariedade é mais que um sindicato polonês*

Me chamem de otimista incurável, mas ainda acredito que a maioria das pessoas quer ser legal, quer fazer o que é certo, se esforça para ser “gente de bem”.

Esta época do ano é recheada não de farofa (este é o peru), mas de boas intenções e mensagens de solidariedade. Mas ontem tive a oportunidade de acompanhar uma situação que me mostrou que a solidariedade só faz mais barulho em dezembro – mas ela existe em todos os meses do ano.

Meu irmão perdeu a carteira. E recuperou. Isso aconteceu graças a uma série de compartilhamentos no Facebook que fizeram com que a foto dos documentos dele chegassem ao meu feed de notícias – e, principalmente, graças à boa vontade da pessoa que os encontrou.

Postei uma mensagem contando resumidamente o caso. Em questão de segundos, as notificações começaram a piscar: minha rede de amigos reagiu positivamente à história, o que obviamente já seria de se esperar, mas o que achei interessante foi a rapidez com que esse fato aparentemente corriqueiro, e de pouco interesse para alguém além do meu irmão que evitou uma dor de cabeça por conta de documentos perdidos, mobilizou a empatia das pessoas. É reconfortante saber que, a despeito das notícias ruins que ganham destaque todos os dias, existe uma maioria silenciosa que não só acredita na solidariedade como vive de acordo com ela.

E o mais legal foi que, além das dezenas de “curtidas”, muitas pessoas vieram contar histórias parecidas:

“eu perdi cartão de credito, ticket e documentos, no meio de um bloco do carnaval do Rio. E a menina que achou foi legal o bastante pra me procurar no facebook, tirar fotos dos documentos, perguntar se era eu mesmo e tentar me enviar.”

“Já aconteceu comigo também, eu devolvi (achando a pessoa pelo facebook) o cartão de ônibus e na semana seguinte eu que perdi o meu e me acharam pelo facebook.”

“Outro dia achamos uma carteira na rua e tb encontramos o dono pelo Facebook…”

Quem resumiu o caso foi a minha amiga Dani K, precisa como sempre: “puro exemplo prático do conceito “rede social” na sua melhor acepção.”

Antecipando então o clima de fim de ano, desejo que 2013 seja cheio de exemplos de solidariedade para todos nós.

-Monix-

* Essa é só para quem tem mais de 40.

 

 

 

 

Apertada de costura

… e com as quatro bocas do fogão ocupadas. Mas com saudades de vocês. Assim que der eu apareço.

(olheosmuros)

Helê

Hoje o blogue está de luto

Imagem

Nossos corações estão com a querida Renata, que perdeu seu amor tão de repente.

As Duas Fridas

Sonho de imortalidade

A capa da Istoé desta semana traz a notícia bombástica: estamos a caminho de uma longevidade nunca antes alcançada pela espécie humana.

A era dos homens imortais

Recursos como próteses para substituir neurônios, máquinas que constroem DNA, coração e até um outro cérebro permitirão que a próxima geração viva pelo menos até os 150 anos – e as sucessoras, ainda muito mais

Não, gente. Por favor. Jura que as pessoas acham legal buscar mais tempo de vida?

Taí uma coisa que eu não entendo. Não quero viver mais, quero apenas viver melhor, se for possível. Claro que é fácil falar, pois teoricamente ainda falta muito tempo para eu me despedir dessa estadia no planeta Terra. Aos 40 é mole esnobar a longevidade – quero ver quando eu chegar aos 70 se vou achar que já está de bom tamanho e estou pronta para partir. :P

Mas olha, uma coisa é o meu apego individual à minha própria vida. Outra coisa é defender o conceito de vida até os 150 anos. Sério mesmo, me cansa só de pensar que ainda faltam 109 anos de labuta.

-Monix-

 

Update: este é o nosso post número 2.245, me avisa o wordpress. Vejam que este mundo não é justo mesmo. A Helê carrega o blogue nas costas e quem ganha a estrelinha sou eu. :-)

 

 

Sem mais

(Foto: Alexandre Loureiro)

Helê

O horror, o horror

Eu tinha escrito um post pra hoje, um texto leve, engraçadinho, ao qual dei acabamento hoje de manhã, aproveitando umas horinhas de silêncio, antes do dia começar de fato. Mas depois da notícia do massacre na escola, não achei adequado. Diante de um acontecimento como esse, nada parece apropriado, na verdade. Fica pra amanhã.

Helê

Tudo se transforma

“An unexpected side-effect of the flooding in parts of Pakistan has been that millions of spiders climbed up into the trees to escape the rising flood waters.

Because of the scale of the flooding and the fact that the water has taken so long to recede, many trees have become cocooned in spiders webs. People in this part of Sindh have never seen this phenonemon before – but they also report that there are now less mosquitos than they would expect, given the amoungt of stagnant, standing water that is around.

It is thought that the mosquitos are getting caught in the spiders web thus reducing the risk of malaria, which would be one blessing for the people of Sindh, facing so many other hardships after the floods.”

(Every Day I’m Tumblin’ via Alessandro Martins)

Traduzindo e resumindo:  as recentes enchentes no Paquistão provocaram um  ”efeito colateral inesperado”:  milhões de aranhas fizeram seus ninhos nas árvores para fugir das águas. Acontece que os mosquitos estão sendo pegos pelas teias, e assim, diminuiu a disseminação da malária, que há décadas maltrata a região.

Não sei bem  por que, mas fiquei impressionada com essa notícia. Tanto que retive essa imagem na memória dias depois de vê-la, a despeito da quantidade avassaladora  de informação à qual sou submetida diariamente.

O pensamento que me ocorre, um tanto infantil, talvez, é que se trata da natureza improvisando. (Ou seria Deus compensando? Vai saber, né?)

Helê

Etnocentrismo, by Calvin

Helê

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