Bastidores — ou o post do post

Tivemos dificuldade para escrever o post aí debaixo.

É que uma das Fridas é negra; a outra, não.
Empacamos na frase: “…são os negros que dizem quando e como se sentem ofendidos.”
Para a Helena, a frase estaria na primeira pessoa: “…nós, os negros, dizemos…”
Para a Monix, tinha que ser do jeito que ficou.
Mas a correspondência para negociar a concordância verbal foi tão intensa que decididmos mostrar pra vocês que tudo nessa vida é negociação. Ou: que mesmo pensando exatamente a mesma coisa, não pudemos dizer que concordamos em gênero, número e grau. :-)
Ah, e que ser tolerante, inclusivo e solidário dá trabalho sim, mas também dá um prazer daqueles…

Helena:
“Continuo achando estranho dizer os negros, como se eu não fosse uma. Mas é ainda mais estranho você escrever como se negra fosse. Mas estranho mesmo é não assinarmos juntas algo no qual estamos totalmente de acordo.”
Monix:
“Como escrever nós os negros e eles os negros ao mesmo tempo??? Ó céussssss. Vou pensar mais um pouco. Deve haver uma solução.”
Helena:
“Acho que não tem outra solução a não ser a terceira do plural. E, a rigor, quando eu digo ‘os negros’ não estou me excluindo, necessariamente. Por outro lado, se vc disser ‘nós negros’ estará se incluindo, necessariamente. Na melhor da hipóteses, a gente transforma este impasse em post…;-)
Frida Preta”

Duas Fridas, again

Sobre o caso Grafite

Um jogador de futebol brasileiro sofre ofensas racistas em campo, no Brasil, e chama a polícia. Esta prende o agressor ao final do jogo e grande parte da opinião pública apóia a atitude do denunciante. Será que, finalmente, podemos cantar eu vejo um novo começo de era*?
Três pseudo-argumentos, três respostas à vera:
Houve exagero/isso é coisa de futebol/o que acontece em campo se resolve em campo” – o futebol, a despeito de toda alegoria ou metáfora a que se preste, não é um universo à parte. O que acontece em campo está sujeito às leis externas; portanto, um crime não pode ser punido apenas com cartão vermelho. O fato de alguém cometer um crime ou mesmo uma contravenção no trabalho não serve de atenuante; pelo contrário, é agravante: o sujeito deve responder como cidadão e como profissional.

Toda essa onda é porque o cara [o jogador agressor] é argentino – o que é outra discriminação.” Há aí uma confusão rudimentar entre preconceito e discriminação – coisas bastante diferentes. Mas, de todo modo, parece que a nacionalidade foi o último fator a ser considerado no momento do delito. E certamente não deve ser levada em conta na apuração dos fatos e na conseqüente punição: Desábato tampouco deve ser absolvido apenas por ser argentino.

Mas o apelido do cara não é grafite? A gente não pode chamar ‘ô negão’ que é ofensa?” Grafite é um apelido que o jogador adotou; ‘preto de merda’ foi um xingamento, pronunciado em tom ofensivo, que ele recusou e revidou. E éassim que funciona: são os negros que dizem quando e como se sentem ofendidos. O dano moral é, por definição, subjetivo. Não há critério objetivo para se avaliar o sofrimento de cada um. Os negros têm o direito de reclamar, acionar a polícia e a Justiça; todos têm o dever de pensar duas vezes antes de abrir a boca — e assumir a responsabilidade pelo que dizem.

Duas Fridas, indeed
*Tempos modernos, Lulu Santos

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 715 outros seguidores

%d bloggers like this: