Estava indo para o trabalho e ouvindo a BandNews FM quando começou o comentário do Milton Neves, que escuto mais por hábito que por gosto. Hoje o tema inicial da fala dele foi o caso Elisa Samudio, e antes de qualquer coisa, disse ele, era preciso prestar um esclarecimento muito importante. “O pessoal fica aí falando que ela era modelo, mas ela era mesmo garota de programa, Boechat.”
Ao que o âncora retrucou imediata e precisamente: fosse ela modelo, garota de programa, enfermeira ou freira, não se justifica que seja assassinada brutalmente como tudo indica que foi.
É uma ressalva que pode parecer meio óbvia para você leitora/leitor que é meio-intelectual-meio-de-esquerda – mas não é. A essa altura dos anos 2000, ainda é bem mais comum do que a gente pensa essa mentalidade de que “ela pediu”, “ela mereceu”, “ela provocou”. Não acho que o comentário do Milton Neves tenha sido intencionalmente machista, mas esse discurso muito me preocupa, pois justamente por não ser explícito acaba contribuindo para a propagação de uma cultura que justifica e corrobora a violência contra a mulher.
Nem sempre o Boechat acerta, mas acredito sinceramente que desta vez ele prestou um grande serviço aos seus ouvintes. Às vezes uma pulga atrás da orelha é o primeiro passo para fazer as pessoas pensarem melhor sobre assuntos incômodos.
-Monix-
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carnaval, as cabrochas. Uma espécie de mulher que só dá no carnaval. Não, não, eu não estou falando no sentido sacana do verbo; elas dão como frutas e flores que surgem numa certa época do ano, em certos lugares e condições específicas – e apenas dessa maneira. Negras, altas, fartas, essas mulheres chegam em partes: primeiro os seios, depois elas mesmas, e quando você pensa que acabou, chega a bunda. Poderosas, onde quer que apareçam estabelecem um raio de atração que ofusca qualquer outra infeliz que desafortunadamente esteja por perto. E quando você pensa que não é possível alguém ter uma presença tão marcante elas … sambam. Ah, elas sambam. Aquela profusão farta de cabelos, sorrisos, carne, dentes e luz evolui com leveza e graça impensáveis, a despeito do ritmo acelerado da música. E sambando revogam vários códigos e leis, incluindo a da gravidade e o nono mandamento. Os homens intimidam-se; outras mulheres as respeitam, todos as reverenciam e elas desabrocham nos bailes, nas ruas, nas escolas de samba, despertando paixões, ereções, beliscões enciumados, olhares hipnotizados. Eu já vivi esta que é uma experiência sensorial: observá-las de perto e em movimento. São uma força da natureza em ação que, acreditem, nenhum take televisivo – nem o close obsceno nem a panorâmica completa – consegue reproduzir. O maior mistério sobre essas mulheres é onde elas passam o resto do ano. Não sei se murcham ou desfolham, se são raptadas por argentinos, se permanecem disfarçadas de merendeira numa escola pública do subúrbio. Já procurei várias vezes por diferentes localidades no Rio de Janeiro – onde elas são endêmicas – e não encontrei. Mas talvez isso não seja tão importante quanto simplesmente apreciá-las em floração. Se você está no Rio, fique atento: a estação já começou.
Essa geração da minha mãe ainda presenciou uma espécie de ”aceleração do tempo”, já que o mundo parece ter rodado muito mais rápido entre 50 e 60 do que é possível numa década. Minha mãe, em 1967, tinha ”só” e ”já” 18 anos: casada e mãe, tinha responsabilidades demais pra desbundar, ao mesmo tempo em que era jovem demais para ignorar a revolução social, cultural e sexual que acontecia a sua volta. Como muitas mulheres dessa época, ela ficou na esquina entre os anos 50 e os 60. Uma geração de mulheres educadas pra casar, mas que se separaram; formaram-se, mas nem sempre conseguiram fazer uma carreira de destaque; educaram os filhos oscilando entre Piaget e Pinochet, ou seja, entre a pedagogia e a palmada.
Eu já vivi esta que é uma experiência sensorial: observá-las de perto e em movimento. São uma força da natureza em ação que, acreditem, nenhum take televisivo – nem o close obsceno nem a panorâmica completa – consegue reproduzir.