Lua cheia

2 de junho de 2004

Voltando para casa, pensando neste post belíssimo de la otra aí embaixo, encantada com a lua cheia se revelando misteriosamente por detrás de finas nuvens, me veio à cabeça a música do Cazuza que é pura poesia. E vocês vão ver que continuamos falando das mesmas coisas:
Blues da Piedade
Cazuza e Frejat

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já crescem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho

Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que estão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

|-| Monix |-

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Papo de elevador

2 Junho, 2004

Esse troço é… como é que se chama aquela parada brega? Kitsch.

Não amiga, kitsch é o pingüim na geladeira da moça alternativa que mora na Zona Sul.
Parada brega é o mesmo pingüim na geladeira da dona de casa do subúrbio.

|-| Monix |-|

Da moral tijucana

Alegre, acima de tudo. Incapaz de um bom dia simples: a saudação vinha sempre acompanhada de uma brincadeira, gozação ou gargalhada – ou tudo junto. Figura popular na vizinhança, do tipo que desfila no bloco do bairro e conhece todo mundo. Basta dizer que era síndico – e ainda sim, querido e admirado. Sempre prestativo e preocupado com o bem-estar comum. Homossexual presumido: nunca levantou bandeira, tão pouco fazia segredo da coabitação com outro homem.

“Houve Deus de levá-lo para Si”, como escreveu belamente meu vizinho húngaro. E, como era de se esperar, na missa de 7º dia havia gente saindo pelo ladrão. Inesperada, talvez, tenha sido a fila de cumprimentos, longa e lenta, ocupando toda a nave da igreja, para consolar o viúvo.

Corte. Estamos na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, bairro de origens conservadoríssimas. Não é o Rio da vanguarda artístico-intelectual de Ipanema, ou da malandragem ‘muderna’ da Lapa. Estamos num bairro limítrofe entre a subúrbio e a zona sul, onde fica o Colégio Militar do Rio de Janeiro e o Instituto de Educação, referência na formação de professoras. Sim, os tempos mudaram e as normalistas foram extintas. Mas quem conhece o Rio sabe que a Tijuca ainda guarda traços de uma moral conservadora, burguesa, puritana.

Neste cenário, numa igreja católica apostólica romana, dezenas de senhoras e senhores da terceira idade, professoras aposentadas, militares reformados, velhos comerciantes, acotovelaram-se para compadecer-se e consolar o companheiro do síndico, inquestionavelmente legimitado na condição de viúvo.

Aos 14 anos, eu, indignada, diria: ”Quanta hipocrisia!”
Aos 24, otimista, pensaria: ”Bacana, as coisas estão mudando!”
Aos 34, permaneço intrigada, pensando que hipocrisia e mudança são apenas duas das muitas facetas da situação… E não sai da cabeça a canção de Paulinho da Viola: ”As coisas estão no mundo/só que eu preciso aprender…”.

Helena Costa

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