Da moral tijucana

Alegre, acima de tudo. Incapaz de um bom dia simples: a saudação vinha sempre acompanhada de uma brincadeira, gozação ou gargalhada – ou tudo junto. Figura popular na vizinhança, do tipo que desfila no bloco do bairro e conhece todo mundo. Basta dizer que era síndico – e ainda sim, querido e admirado. Sempre prestativo e preocupado com o bem-estar comum. Homossexual presumido: nunca levantou bandeira, tão pouco fazia segredo da coabitação com outro homem.

“Houve Deus de levá-lo para Si”, como escreveu belamente meu vizinho húngaro. E, como era de se esperar, na missa de 7º dia havia gente saindo pelo ladrão. Inesperada, talvez, tenha sido a fila de cumprimentos, longa e lenta, ocupando toda a nave da igreja, para consolar o viúvo.

Corte. Estamos na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, bairro de origens conservadoríssimas. Não é o Rio da vanguarda artístico-intelectual de Ipanema, ou da malandragem ‘muderna’ da Lapa. Estamos num bairro limítrofe entre a subúrbio e a zona sul, onde fica o Colégio Militar do Rio de Janeiro e o Instituto de Educação, referência na formação de professoras. Sim, os tempos mudaram e as normalistas foram extintas. Mas quem conhece o Rio sabe que a Tijuca ainda guarda traços de uma moral conservadora, burguesa, puritana.

Neste cenário, numa igreja católica apostólica romana, dezenas de senhoras e senhores da terceira idade, professoras aposentadas, militares reformados, velhos comerciantes, acotovelaram-se para compadecer-se e consolar o companheiro do síndico, inquestionavelmente legimitado na condição de viúvo.

Aos 14 anos, eu, indignada, diria: ”Quanta hipocrisia!”
Aos 24, otimista, pensaria: ”Bacana, as coisas estão mudando!”
Aos 34, permaneço intrigada, pensando que hipocrisia e mudança são apenas duas das muitas facetas da situação… E não sai da cabeça a canção de Paulinho da Viola: ”As coisas estão no mundo/só que eu preciso aprender…”.

Helena Costa

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