A Marcinha está na África do Sul e é uma delícia ler os relatos dela. Mas esse está tão bom, tão bom, que não resisti e selecionei uns trechos para mostrar para vocês;
O Caminho de Volta
(…) A gente tem o costume de generalizar tudo e achar que todos os brancos ou negros aqui pensam da mesma forma. Não é verdade. Há excessões, sempre há.
Estávamos falando sobre as diversas línguas que são faladas aqui, como é difícil para nós ouvir várias pessoas falando várias línguas diferentes num mesmo lugar. E a Delia nos contou que com o fim do Apartheid a grande dificuldade do país foi adaptar uma linguagem única. No início, os brancos queriam que o Afrikaans fosse a lingua oficial e queriam passar longe do Zulu. Os negros se negaram a deixar de falar o Zulu e se negavam a aprender o Afrikaans. O inglês é o meio termo, mas nem todos falam inglês. (…)
E dessa conversa sobre a linguagem, a Delia acabou falando do problema racial. Ela nos contou que Middelburg é uma das cidades mais atrasadas da África do Sul quanto ao fim da segregação. Ela diz que aqui a maioria dos brancos tem mesmo essa repulsa de negros, não podem sequer imaginar negros de outra forma senão uma sociedade de segunda classe usada para mão de obra. E, de uma certa forma, os negros desta pequena cidade têm essa baixa auto-estima também, acreditando que são melhores mesmo servindo aos brancos, sem ambição, sem vontade de mudar.
Ela nos disse também que no começo toda a África do Sul era assim. Mas aos poucos os negros passaram a ir às aulas, passaram a ser letrados, informados e graduados. Hoje muitos têm cargos de responsabilidade que antes eram exclusivos dos brancos. Por sua vez, os brancos também aprenderam muito, absorveram novas idéias, se envolveram mais com essa parte da sociedade que antes era tão discriminada. Novos vínculos foram criados, velhos preconceitos foram quebrados.
Porém, é impossível exigir que uma inteira sociedade mude da noite pro dia. (…) A grande verdade é que boa parte dos brancos odiaram com todas as suas forças o fim do Apartheid. E quando viram que a nova lei era inevitável, quando viram que a democracia seria a regra, muitos, mas muitos mesmo, um grande número, fizeram suas malas e partiram para a Holanda, Austrália, Alemanha e Reino Unido. Tristemente a maioria dos brancos se recusaram a viver entre negros, trabalhar entre negros, ver seus filhos entre negros, correndo o risco de — god forbid — ter um membro da família negro. E partiram.
E continuam partindo. Em massa. Segundo a Delia, os novos censos já indicaram uma queda acentuada de brancos na Áfica do Sul, que antes eram a maioria. Curiosamente, assim que os colonizados ganharam direitos, os colonizadores içaram âncora e aos poucos estão voltando para seus continentes de origem. E aos poucos, a África do Sul está voltando a ser um país de negros como na época da sua descoberta.
(…) Não cabe a nós que nunca vivemos na situação deles julgar. Mas eu admiro aqueles que ficam aqui. A família da Delia são um deles. Aqueles que ficam e lutam por uma África do Sul de dias melhores. Não por falta de opção, mas ficam porque acreditam no país e nesta nova sociedade que está se formando.

Isso é só o aperitivo. Vale a pena dar uma passadinha por .

|-| Monix |-|

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