Sabe, Angela? Eu também acho que estou me expressando mal, às vezes. O que eu gostaria de dizer (e acho que a Helena também) é que quanto mais tivermos grades, vidros fumês, janelas fechadas, medo, sustos, olhares atravessados, desconfiança, mais teremos ódio, arrastões, guerra.

(E essas campanhas da Paz só aumentam a segregação e o medo.)
Não deixo de pensar nem por um dia que gentileza gera gentileza. (E amor à natureza.) Quero morrer acreditando nisso.

|Monix|

Esclarecimento: a discussão sobre exclusão social/violência urbana está focada no Rio de Janeiro, que é a nossa cidade. Mas as idéias que defendemos, é claro, se aplicam a quase todas as grandes cidades brasileiras.
Duas Fridas

Desabafo literal

Perdão leitores, hoje vai ser um bocado diferente.
Eu sempre evitei utilizar este blog como um diário virtual. Não tenho nada contra quem o faz; é uma escolha estilística, apenas. Mas hoje não dá.
Há pouco mais de um mês, sofri um assalto à noite, num sinal de trânsito, junto com minha preciosa família (meu marido e minha filha de menos de 2 anos, uma cunhada querida). Não houve violência física, mas o prejuízo foi bem maior que o celular que eu dei para o bandido, aterrorizada que estava ao ouvir ameaças à vida do meu marido. Acreditamos até que não havia armas; elas só foram anunciadas, nãoexpostas, mas a experiência de ouvir (pior, acordar ouvindo, porque eu estava cochilando no carro) ouvir alguém ameaçando outro de morte fere, marca.
Na semana passada, chegando em casa depois de mais um dia de trabalho intenso o comerciante amigo (sim, eles ainda existem) chama e mostra vitrine faltando: ‘Sabe aquela hora em que você se despediu da sua filha e da babá aqui em frente? Pois é, eu vi ela mandando beijinho pra você; me virei e bum! A vitrine veio abaixo. Pensei que fosse uma pedra, mas foi uma bala perdida.’ Poderia ter sido eu, minha filha, a babá, o comerciante amigo. Aqui, na loja embaixo da minha casa, ao lado da minha portaria.
Na sexta feira, estava indo pra casa depois de um chopinho com o marido, nem meia noite era, nem dirigindo eu estava: entrei no carro, ouvi um barulho e acordei dentro do carro, coberta de vidro: um ônibus perdeu a direção no cruzamento e veio em cima dos carros estacionados, atingindo a mim e ao meu marido. Saldo: muitas escoriações, dores, hematomas, procedimentos burocráticos a cumprir e um medão enorme.
Socorro! Alguém me explica o que tá acontecendo? Alguém me reza ou reza por mim? Posso sair de casa de novo?
Eu sei, eu sei que eu tenho que agradecer, porque a todas estas eu me saí bem, inteira, sem perdas materiais ou físicas, mas emocionalmente tô em frangalhos. Pode ser vontade de controlar o incontrolável, pode ser que eu esteja buscando lógica e mensagem onde não há, mas eu não tô entendendo muito bem o porque disso tudo, tô maus, triste, insegura, assustada pra caralho e não tô conseguindo ver tudo isso nem com um tracinho de humor — o que, pra mim é muito grave.
Agradeço comentários, e-mails, preces, orações, good vibes, explicações astrais, reforços espirituais, o escambau.
Só dispenso acusações à cidade e constatações óbvias sobre ‘a violência no Rio de Janeiro eticétera’, simplesmente porque são óbvias e não me ajudam em nada.
Desculpaê o mau jeito, gente.

Helena Costa

Mudando de assunto

Deve ser um tipo de recorde: decoração natalina na primeira semana de outubro?!?

Cidade reunida – Parte II

E tem aquela velha piada da criação do mundo, que conta que Deus criou o Brasil com suas matas, florestas, rios, riquezas minerais (até petróleo, muito, já somos quase auto-suficientes), as praias belíssimas, enfim, essa maravilha toda que vocês já sabem. E no final, quando os anjos chamaram a atenção para a injustiça, Deus disse: “esperem para ver o povinho que vou botar lá.” Só que a piada na verdade faz uma pequena confusão. O problema não é o “povinho”.
O problema é a elite que despreza o povo, que olha para o país com um olhar escapista, com a ligeira sensação de que está sempre com um pé no primeiro avião para o mundo “civilizado” deusolivre de perder tempo aqui nesse paisinho, deusolivre de deixar seu rico dinheirinho aqui, de investir aqui.
E a classe média, ah, a classe média tem inveja e medo. Inveja dos ricos que podem fugir daqui quando querem; medo dos pobres, que representam o que há de mais temível: o diferente. Aí entra aquela história do IPTU mais caro da cidade. Para quem não sabe: o Rio de Janeiro tem uma organização geográfica curiosa, singular, onde os bairros nobres dividem espaço com enormes favelas e áreas carentes. E os moradores desses bairros nobres pagam impostos que os moradores da favela obviamente não pagam. Daí que o discurso que mais se escuta em épocas de tensões sociais mais explicitadas é “nós pagamos o IPTU mais caro da cidade, por isso…” e segue-se alguma crítica ao prefeito que não asfaltou a calçada certa, não botou um guarda de plantão na esquina certa, não cuidou de “nós” em primeiro lugar.
Bem, pessoal, temos uma notícia bombástica para vocês: IPTU não é taxa condominial. Imposto não existe para “retornar a quem pagou em forma de benfeitorias”. Os impostos são a forma que a sociedade encontrou para fazer com que tanto os chiques e famosos quanto os cafonas e desconhecidos tenham direito a água encanada, esgoto, iluminação pública, guarda na esquina. Além disso, os bairros com o imposto mais caro são justamente os bairros com a maior renda per capita da cidade: é a melhor forma conhecida de se realizar a desejada distribuição de renda.
E o que isso tem a ver com violência? Pensem, queridos, pensem.
Exclusão social é uma forma muito cruel de marginalização.
– O quê? Vocês estão querendo dizer que nosso papo inofensivo na mesa do bar, as críticas ao prefeito, nossos carros com vidros fechados, nossas grades, que isso é que provoca a marginalização, e não o contrário?
– Não, meu bem, quem disse isso foi você.

Duas Fridas

Love, Love, Love

Disse John Lennon:

There’s nothing you can do that can’t be done.
Nothing you can sing that can’t be sung.
Nothing you can say but you can learn how to play the game.
It’s easy.

Nothing you can make that can’t be made.
No one you can save that can’t be saved.
Nothing you can do but you can learn how to be you in time.
It’s easy.

All you need is love.
Love is all you need.

Nothing you can know that isn’t known.
Nothing you can see that isn’t shown.
Nowhere you can be that isn’t where you’re meant to be.
It’s easy.

All you need is love.
Love is all you need.

|Monix|

Diretamente dos comentários

Ana Paula: “Eu também amo a cidade (não só a nossa, essa acima de todas, claro, mas a cidade de maneira geral, a urbe, a vida urbana), e tenho refletido muito sobre isso ultimamente. Toda a minha reflexão, teorização e pesquisa, nos últimos anos, como arquiteta e urbanista tem sido sobre o espaço público, que é, dos espaços da cidade, o que mais materializa os conflitos e os convívios que sintetizam a urbanidade. E me dói perceber que, quanto mais o bicho pega, mais a gente se encolhe, privatiza os espaços, segrega, gradeia. Os bandidos ocuparam o espaço, e a gente bateu em retirada. Ou melhor, a gente nem tem mais como bater em retirada, dada nossa condição de reféns, como dolorosamente lembrou a Monix. Mas a resistência deve começar exatamente no espaço público, e eu considero que a internet, nesse sentido, é um dos espaços mais públicos e urbanos que existem hoje, só que virtual. Vamos falar, sim. ‘Pois paz sem voz não é paz, é medo’… Mas como a gente já andou conversando por aqui, tem que ser com outras armas.”
Santo Mário: “Gente. Não adianta nada reclamar dos políticos e da sociedade omissa. Somos a sociedade omissa e fomos nós que votamos nesses políticos que estão aí. É assim que a nossa banda techno-funk toca! Enquanto continuarmos fumando maconha no posto 9 e dando cinquantinha na mão do guarda pq furamos o sinal vermelho as coisas vão continuar assim. Não tem jeito. A sociedade quer mesmo mudar? Vai abrir mão do “carioca way of life”. Sei não.”

Cidade reunida – Parte I

Nos anos 90, o jornalista Zuenir Ventura publicou o livro Cidade Partida (Companhia das Letras), em que mostra “os dois lados” da cidade do Rio de Janeiro – o asfalto e o morro, a Zona Sul e a favela, a elite e a miséria. A partir da discussão que se iniciou na época do lançamento, surgiram movimentos da sociedade civil lutando pelo fim da violência. (Aliás, a propósito disso, o Millôr tem uma frase genial, mais ou menos assim: lutar pela paz é o mesmo que estuprar em nome da presevação da espécie. Ui. Continuemos, pois.)
Infelizmente, nós acreditamos que os movimentos, ainda que organizados, pela modificação deste quadro, se fundaram a partir de uma premissa equivocada e elitista (ainda que inconscientemente elitista). E agora nós vemos que dez anos de tentativas ainda não foram suficientes nem para arranhar a superfície do problema da violência na cidade.
Nós levantamos a bola desse debate aqui, que é o espaço que temos para isso. E vamos falar mais sobre o tema.
Para começar, dêem uma olhada nas capas de dois grandes jornais aqui do Rio publicados na semana passada. A manchete d’O Dia fala sobre (mais) uma execução numa área carente da cidade. Já o nobilíssimo jornal O Globo estampa em letras garrafais a manchete mais cretina de que temos notícia. Quer dizer, basicamente é o seguinte: o terror pode se instalar em qualquer área da cidade… mas no Leblon NÃO!
Definitivamente, este não é o melhor caminho para se construir uma cidade (re)unida.

Duas Fridas

Foi Cristo quem disse “fazei o bem sem olhar a quem”?
Eu ainda acredito nisso.
(Embora volta e meia tenha uns surtos “não desejamos mal a quase ninguém”.)

Monix

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