As Duas Fridas indicam (e recomendam):

A Matrix Editora convida para o lançamento do livro

Mothern – Manual da Mãe Moderna
de Juliana Sampaio e Laura Guimarães

Uma edição dos melhores textos do blog e mais algumas novidades.

Dia 02/05, segunda-feira, às 19 horas
Livraria Argumento
Rua Dias Ferreira, 417, Leblon

Divulguem, chamem os amigos, apareçam.
Não é um ótimo presente para o Dia das Mães?
;-)
Esperamos vocês lá!

* O selo é uma cortesia da :::Fer:::

Q&A Blogal, repassado por aí

1.Sem sair do formato papel, que livro você gostaria de ser?
Harry Potter, porque ninguém lava a louça nem fica preso no engarrafamento.

2. Você já ficou meio apaixonado(a) por um personagem de ficção?
Sim, pelos moços fófis do Nick Hornby

3. Qual foi o último livro que compraste?
Mothern – Manual da Mãe Moderna. Antes deste, Bartleby, o Escriturário, do Herman Melville.

4. Que livros estás a ler?
A Psicanálise dos Contos de Fadas, do Bruno Bettelheim; 100 Contos de Humor (antologia); No Logo, da Naomi Klein (há vários meses); e Vida Digital, do Nicholas Negroponte (há outros tantos).

5. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Manual da Construção de Jangadas
Sobrevivendo na Selva
100 Tipo de de Jogos de Carta Solitários (inclui baralho!)
Aprenda a construir um rádio-comunicador em 10 lições
Em Busca do Tempo Perdido

6. A quem vais passar este testemunho e por quê?
Pra Ângela, pra ela rir um pouco, pra Cam, pra me conhecer melhor, pra Flá, porque eu gosto dela, pra Giu, porque ela é mais cabeça que eu, e pra Fer, que fez falta anteontem.

Mau-humor carioca

O jornaleiro, cansado de informar onde fica a agência da Caixa Econômica, se o ônibus 409 passa na Central do Brasil ou pra que lado fica a Praça Afonso Pena, toma uma atitude. Com cartolina e caneta Bic escreve um cartaz tosco, que pendura em lugar bem visível na banca:

Informação: R$ 1,00

Helena Costa, mudando de assunto e varrendo o confete e a seda rasgada de ontem…

Errei sim

A música citada no post anterior não é de Jorge Mautner. Ela foi gravada por Caetano Veloso no (fabuloso) disco Cinema Trancesdental e chama-se ‘Elegia’. O verso correto é “feliz de quem penetre o teu mistério” (singular e segunda pessoa) — mas este erro vamos deixar como está que se encaixa melhor com o mistério em questão. Essa letra belíssima tem um trecho que considero especialmente feliz:

Como uma encadernação vistosa,
feita para iletrados, a mulher se enfeita
Mas ela é um livro místico e somente
a alguns é que tal graça se consente
é dado lê-la.

Ah: a canção é de Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos, a partir de um poema de John Donne (o lord da ilustração acima), poeta inglês do século XVII – mais Monix impossível, né, gente?

Helena Costa

PS: Você ficou com a música na cabeça? Essa ou a do título?

Você melece, Monix

Fui incubida de escrever um texto para homenagear minha sócia mui amada, salve, salve Monix – texto esse que, obviamente, ficou aquém do que ela merece. Mas numa frase acho que acertei em cheio (‘muléstia a parte’) e portato cometo o ultraje de me auto-plagiar e reproduzi-la aqui:

“Se você pensa que ela é uma das Fridas que dão nome ao nosso blogue, está enganado – é a outra.”

Aqui acho que temos pelo menos uma pista desta pessoa fascinante e nada óbvia que me dá a honra de dividir com ela este blogue, misto de ateliê-laboratório-cozinha. Ela não está aonde se espera e aparece sempre que preciso; rejeita com fervor rótulos e esteriótipos – para si e para quem quer que seja. Duas Fridas são apenas duas, das muitas possibilidades desta mulher. Diria Jorge Mautner, “feliz de quem penetre os seus mistérios”.

Já escrevi homenagem, estive com ela ao vivo (morram de inveja!) mas não podia deixar de expressar aqui, na nossa casinha, esta declaração e meus desejos mais profundos, sinceros e intensos de que ela seja muito, muito feliz nesta nova idade. E que eu só espero continuar aqui, ” querendo te aprender o total/do querer do que há e do que não há em mim”.

Feliz nova idade, Monix.

Nomes nobres

Gente, assim eu vou ficar muito metida. Olha só o que a gloriosa Vera mandou pra mim:

NOBRES NOMES
Logo que terminei o 2o. grau, na verdade o de técnico em contabilidade, que era o curso público disponível na minha cidade do interior, fui para a capital. Como pretendia estudar Letras, e não tinha aprendido nem Português para valer nem nada de Latim, fui fazer cursinho. Na Belo Horizonte de então, comecinho dos anos 60, reinavam o curso Mário de Oliveira, para Exatas, o do prof. Guerra, para Medicina, e o charmoso Champagnat, para Humanas. Foi para esse que me encaminhei.
No Champagnat tínhamos três mestres: Professor Delson, de Português, grande professor de literatura, sempre com um sorriso malicioso, hoje eu diria um sorriso sacana, naquela época chamando nossa atenção para as armadilhas da língua, e tirando as ilusões daqueles que pensavam que sabiam o bastante; Professor Roldão, ligeiramente pedante, quase nenhum senso de humor aparente, que insistia na pronúncia correta do Francês, o que não imaginávamos ser tão necessário (mas, sim, crianças, o vestibular tinha prova oral); e Professor Nivaldo, de Latim, que nos iniciava (meu caso) nos mistérios do
rosa, rosae ou aprimorava a habilidade com o idioma daqueles que vinham do clássico, que era como se chamava o 2o. grau direcionado para Humanas.
O Champagnat funcionava à rua Timbiras, numa casa antiga, dessas coladas no passeio, com janelas dando diretamente para a rua, com jardim lateral, como muitas no bairro dos Funcionários. Entrávamos por um portão de ferro, passávamos pelo alpendre de ladrilhos hidráulicos e chegávamos à sala de aula, onde nos espalhávamos pelos velhos, imensos e lustrosos bancos de madeira.
Vinda do interior e de escola pública, me deslumbrei com todos aqueles colegas que, a meu ver, sabiam muito mais que eu, dominavam os códigos da cidade grande e, principalmente, com certeza iam passar no vestibular. Para mim, todos eles tinham o que hoje chamo de consistência de
status ou currículo implícito, tudo o que me faltava.
O Professor Nivaldo não dispensava a chamada. Com voz empostada, embora ligeiramente anasalada, e com alguma expressão de ironia, cantava, para meu maior encantamento, os nomes dos meus colegas. Percebo hoje que fazia a desnecessária chamada apenas pelo prazer de ouvir e nos revelar aquela sucessão de alexandrinos, decassílabos, iambos, coriambos, ditirambos. Que saudade de ouvi-lo declamar: Álvaro Augusto de Paula Vianna, Carlos Márcio Feitosa Furtado, Paulo César Costa Carvalho, Luis Edmundo Germano de Alvarenga, Osmar Brina Correa. Por onde andarão?
Recolhida a minha insignificância, não dava importância a meu Vera Martins Guimarães. Nem me ocorria que meu nome completo, usado apenas no batistério e em alguns
family jokes: Vera de Lourdes Martins Guimarães, era um belo decassílabo.
Ao longo da minha vida, convivi com outros sonoros nomes, de amigos de sempre: Maria Auxiliadora Marques de Carvalho Mitre, Maria Afonsina Prado Alvarenga Vilela, Anna Eliza de Azevedo Mayer, Lauro Augusto Caldeira Machado Coelho.
Recentemente, querida amiga disse que meu atual Vera Guimarães Correa evocava sinhazinhas. Ela, sim, nos gestos de generosidade de todos os dias, revela realeza. Nem precisava, mas se chama MÔNICA CHAVES DE MELO, redondilha perfeita.

Vocês vão me desculpar a egotrip, mas é que o luxuosissimo Cláudio Luiz me deixou metida a besta. Agora eu tenho logomarca!

Da coluna de Sérgio Rodrigues, em No Mínimo:
A Palavra É…
Bento

21.04.2005 | De Londres, onde o papa se chama Benedict the Sixteenth, mestre Ivan Lessa estranha esse papo de Bento que os falantes de português, excêntricos como sempre, abraçam. E me manda o alerta: “Pra mim é racismo”.
Será? A suspeita cresce quando se começa a desfiar esse terço, coisa que até agora a imprensa brasileira não fez. Como se sabe, depois de, no calor da hora, traduzir apressadamente o que o mundo estava dizendo e anunciar ao país que o novo papa era Benedito, a imprensa mudou rapidamente para Bento e pôs-se a assobiar, fingindo que nada tinha acontecido.
Esquisito. Adianta pouco lembrar que Benedito e Bento são o mesmo nome, até porque não são. Compartilham antepassado ilustre, o latim benedictus, está certo; benzer, verbo de que “bento” é particípio, deixa à vista de todo mundo seus elementos – bem + dizer. Isso tudo confere, mas, ainda assim, Bento não é Benedito.
Não é porque, primeiro, Bento tem três letras – e duas sílabas – a menos. Segundo, porque Bento (480-547, ou em torno disso) é um dos mais destacados santos da Igreja: o homem a quem se atribui, por meio de seus seguidores, a cristianização da maior parte da Europa. Sua ordem, a dos monges beneditinos, viria a se tornar poderosa. Já seu xará Benedito…
Benedito (1526-1589), santo menor, humilde, negro, é praticamente um antípoda do xará Bento. Siciliano descendente de escravos, fez-se franciscano e, analfabeto, virava-se como cozinheiro do monastério. Não é um santo importante, longe disso, para a Igreja de Ratzinger, embora no Brasil goze de grande prestígio popular por conta de sua origem e sua cor.
Diante dessas informações, entende-se que não se queira misturá-los. Mas outras línguas misturam? Não, não misturam. A verdade é que ninguém presta muita atenção em Benedito, o santo preto. O Benedict the Sixteenth da terra adotiva do Ivan é, sem qualquer ambigüidade, o outro Benedict, Bento de Nursia. O mesmo se pode dizer de Benedikt em alemão, Benedicto em espanhol, Benoît em francês. Já aqui…
Não, não estamos errados em chamar o papa de Bento. A intenção do cardeal Ratzinger era adotar o nome do santo que, em português, há séculos, é chamado de Bento mesmo, e falar em Benedito induziria muita gente ao erro. Ainda assim, claro que não está descartada a possibilidade de racismo que o Ivan farejou. O racismo da distinção entre Bento e Benedito, se existir, é mais velho que Zumbi. E até agora ninguém me deu motivos para acreditar que não existe.

Monix, adorando misturar todos os assuntos num só

Bastidores — ou o post do post

Tivemos dificuldade para escrever o post aí debaixo.

É que uma das Fridas é negra; a outra, não.
Empacamos na frase: “…são os negros que dizem quando e como se sentem ofendidos.”
Para a Helena, a frase estaria na primeira pessoa: “…nós, os negros, dizemos…”
Para a Monix, tinha que ser do jeito que ficou.
Mas a correspondência para negociar a concordância verbal foi tão intensa que decididmos mostrar pra vocês que tudo nessa vida é negociação. Ou: que mesmo pensando exatamente a mesma coisa, não pudemos dizer que concordamos em gênero, número e grau. :-)
Ah, e que ser tolerante, inclusivo e solidário dá trabalho sim, mas também dá um prazer daqueles…

Helena:
“Continuo achando estranho dizer os negros, como se eu não fosse uma. Mas é ainda mais estranho você escrever como se negra fosse. Mas estranho mesmo é não assinarmos juntas algo no qual estamos totalmente de acordo.”
Monix:
“Como escrever nós os negros e eles os negros ao mesmo tempo??? Ó céussssss. Vou pensar mais um pouco. Deve haver uma solução.”
Helena:
“Acho que não tem outra solução a não ser a terceira do plural. E, a rigor, quando eu digo ‘os negros’ não estou me excluindo, necessariamente. Por outro lado, se vc disser ‘nós negros’ estará se incluindo, necessariamente. Na melhor da hipóteses, a gente transforma este impasse em post…;-)
Frida Preta”

Duas Fridas, again

Sobre o caso Grafite

Um jogador de futebol brasileiro sofre ofensas racistas em campo, no Brasil, e chama a polícia. Esta prende o agressor ao final do jogo e grande parte da opinião pública apóia a atitude do denunciante. Será que, finalmente, podemos cantar eu vejo um novo começo de era*?
Três pseudo-argumentos, três respostas à vera:
Houve exagero/isso é coisa de futebol/o que acontece em campo se resolve em campo” – o futebol, a despeito de toda alegoria ou metáfora a que se preste, não é um universo à parte. O que acontece em campo está sujeito às leis externas; portanto, um crime não pode ser punido apenas com cartão vermelho. O fato de alguém cometer um crime ou mesmo uma contravenção no trabalho não serve de atenuante; pelo contrário, é agravante: o sujeito deve responder como cidadão e como profissional.

Toda essa onda é porque o cara [o jogador agressor] é argentino – o que é outra discriminação.” Há aí uma confusão rudimentar entre preconceito e discriminação – coisas bastante diferentes. Mas, de todo modo, parece que a nacionalidade foi o último fator a ser considerado no momento do delito. E certamente não deve ser levada em conta na apuração dos fatos e na conseqüente punição: Desábato tampouco deve ser absolvido apenas por ser argentino.

Mas o apelido do cara não é grafite? A gente não pode chamar ‘ô negão’ que é ofensa?” Grafite é um apelido que o jogador adotou; ‘preto de merda’ foi um xingamento, pronunciado em tom ofensivo, que ele recusou e revidou. E éassim que funciona: são os negros que dizem quando e como se sentem ofendidos. O dano moral é, por definição, subjetivo. Não há critério objetivo para se avaliar o sofrimento de cada um. Os negros têm o direito de reclamar, acionar a polícia e a Justiça; todos têm o dever de pensar duas vezes antes de abrir a boca — e assumir a responsabilidade pelo que dizem.

Duas Fridas, indeed
*Tempos modernos, Lulu Santos

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