Da coluna de Sérgio Rodrigues, em No Mínimo:
A Palavra É…
Bento

21.04.2005 | De Londres, onde o papa se chama Benedict the Sixteenth, mestre Ivan Lessa estranha esse papo de Bento que os falantes de português, excêntricos como sempre, abraçam. E me manda o alerta: “Pra mim é racismo”.
Será? A suspeita cresce quando se começa a desfiar esse terço, coisa que até agora a imprensa brasileira não fez. Como se sabe, depois de, no calor da hora, traduzir apressadamente o que o mundo estava dizendo e anunciar ao país que o novo papa era Benedito, a imprensa mudou rapidamente para Bento e pôs-se a assobiar, fingindo que nada tinha acontecido.
Esquisito. Adianta pouco lembrar que Benedito e Bento são o mesmo nome, até porque não são. Compartilham antepassado ilustre, o latim benedictus, está certo; benzer, verbo de que “bento” é particípio, deixa à vista de todo mundo seus elementos – bem + dizer. Isso tudo confere, mas, ainda assim, Bento não é Benedito.
Não é porque, primeiro, Bento tem três letras – e duas sílabas – a menos. Segundo, porque Bento (480-547, ou em torno disso) é um dos mais destacados santos da Igreja: o homem a quem se atribui, por meio de seus seguidores, a cristianização da maior parte da Europa. Sua ordem, a dos monges beneditinos, viria a se tornar poderosa. Já seu xará Benedito…
Benedito (1526-1589), santo menor, humilde, negro, é praticamente um antípoda do xará Bento. Siciliano descendente de escravos, fez-se franciscano e, analfabeto, virava-se como cozinheiro do monastério. Não é um santo importante, longe disso, para a Igreja de Ratzinger, embora no Brasil goze de grande prestígio popular por conta de sua origem e sua cor.
Diante dessas informações, entende-se que não se queira misturá-los. Mas outras línguas misturam? Não, não misturam. A verdade é que ninguém presta muita atenção em Benedito, o santo preto. O Benedict the Sixteenth da terra adotiva do Ivan é, sem qualquer ambigüidade, o outro Benedict, Bento de Nursia. O mesmo se pode dizer de Benedikt em alemão, Benedicto em espanhol, Benoît em francês. Já aqui…
Não, não estamos errados em chamar o papa de Bento. A intenção do cardeal Ratzinger era adotar o nome do santo que, em português, há séculos, é chamado de Bento mesmo, e falar em Benedito induziria muita gente ao erro. Ainda assim, claro que não está descartada a possibilidade de racismo que o Ivan farejou. O racismo da distinção entre Bento e Benedito, se existir, é mais velho que Zumbi. E até agora ninguém me deu motivos para acreditar que não existe.

Monix, adorando misturar todos os assuntos num só

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: