Nomes nobres

Gente, assim eu vou ficar muito metida. Olha só o que a gloriosa Vera mandou pra mim:

NOBRES NOMES
Logo que terminei o 2o. grau, na verdade o de técnico em contabilidade, que era o curso público disponível na minha cidade do interior, fui para a capital. Como pretendia estudar Letras, e não tinha aprendido nem Português para valer nem nada de Latim, fui fazer cursinho. Na Belo Horizonte de então, comecinho dos anos 60, reinavam o curso Mário de Oliveira, para Exatas, o do prof. Guerra, para Medicina, e o charmoso Champagnat, para Humanas. Foi para esse que me encaminhei.
No Champagnat tínhamos três mestres: Professor Delson, de Português, grande professor de literatura, sempre com um sorriso malicioso, hoje eu diria um sorriso sacana, naquela época chamando nossa atenção para as armadilhas da língua, e tirando as ilusões daqueles que pensavam que sabiam o bastante; Professor Roldão, ligeiramente pedante, quase nenhum senso de humor aparente, que insistia na pronúncia correta do Francês, o que não imaginávamos ser tão necessário (mas, sim, crianças, o vestibular tinha prova oral); e Professor Nivaldo, de Latim, que nos iniciava (meu caso) nos mistérios do
rosa, rosae ou aprimorava a habilidade com o idioma daqueles que vinham do clássico, que era como se chamava o 2o. grau direcionado para Humanas.
O Champagnat funcionava à rua Timbiras, numa casa antiga, dessas coladas no passeio, com janelas dando diretamente para a rua, com jardim lateral, como muitas no bairro dos Funcionários. Entrávamos por um portão de ferro, passávamos pelo alpendre de ladrilhos hidráulicos e chegávamos à sala de aula, onde nos espalhávamos pelos velhos, imensos e lustrosos bancos de madeira.
Vinda do interior e de escola pública, me deslumbrei com todos aqueles colegas que, a meu ver, sabiam muito mais que eu, dominavam os códigos da cidade grande e, principalmente, com certeza iam passar no vestibular. Para mim, todos eles tinham o que hoje chamo de consistência de
status ou currículo implícito, tudo o que me faltava.
O Professor Nivaldo não dispensava a chamada. Com voz empostada, embora ligeiramente anasalada, e com alguma expressão de ironia, cantava, para meu maior encantamento, os nomes dos meus colegas. Percebo hoje que fazia a desnecessária chamada apenas pelo prazer de ouvir e nos revelar aquela sucessão de alexandrinos, decassílabos, iambos, coriambos, ditirambos. Que saudade de ouvi-lo declamar: Álvaro Augusto de Paula Vianna, Carlos Márcio Feitosa Furtado, Paulo César Costa Carvalho, Luis Edmundo Germano de Alvarenga, Osmar Brina Correa. Por onde andarão?
Recolhida a minha insignificância, não dava importância a meu Vera Martins Guimarães. Nem me ocorria que meu nome completo, usado apenas no batistério e em alguns
family jokes: Vera de Lourdes Martins Guimarães, era um belo decassílabo.
Ao longo da minha vida, convivi com outros sonoros nomes, de amigos de sempre: Maria Auxiliadora Marques de Carvalho Mitre, Maria Afonsina Prado Alvarenga Vilela, Anna Eliza de Azevedo Mayer, Lauro Augusto Caldeira Machado Coelho.
Recentemente, querida amiga disse que meu atual Vera Guimarães Correa evocava sinhazinhas. Ela, sim, nos gestos de generosidade de todos os dias, revela realeza. Nem precisava, mas se chama MÔNICA CHAVES DE MELO, redondilha perfeita.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: