Botando Lenha na Fogueira

Ontem encontrei uma mãe recém-separada, de classe média, que me disse: fiquei muito sobrecarregada depois da separação. Parece que ela nunca imaginou que estaria tão sozinha. É que por mais que o ex-marido, ou, de maneira geral, o pai da criança, se envolva, se interesse, participe, a dura realidade só as mães conhecem – o filho é da mãe. (Eu sei das exceções, eu sei.)

BethS escreveu sobre sua experiência num grupo feminista. A partir do texto dela, me lembrei de uma pesquisa (falei sobre isso aqui no blog, em outro contexto) que indicava um número expressivo de mulheres responsáveis pelo sustento da família. No Brasil pós-urbanização, as mulheres é que vêm puxando a carroça, há anos. Em todas as classes sociais.
Então, desde anteontem tenho pensado nessa questão dolorosa. Quase todo mundo que escreveu a favor do aborto na blogsfera citou a dor de toda mulher minimamente sã ao se deparar com essa escolha dura, cruel, difícil. Sempre ouvi, a favor do direito de decidir, que “o corpo é da mulher”. Mas não é só do corpo que estamos falando. É também da alma.

-Monix-

PS – Foi difícil decidir publicar este post, que nem é tão pessoal assim. Mas sabem por quê? Me dei conta depois de pensar um pouco. Ganha um doce quem descobrir. É que é meio proibido tratar de um tema tabu como aborto falando, no mesmo texto, sobre filhos.

Sobre aborto

Uma das coisas que mais me incomoda sobre o aborto é justamente o silêncio sobre o assunto. Porque mexe no róseo porém tirano ”mito da maternidade”; porque somos um um país supostamente católico, e um povo sobejamente reprimido; porque nosso laico estado confunde crime com pecado, entre outras razões, o aborto é um dos maiores tabus da sociedade brasileira.

Tanto assim que mesmo os espontâneos e involuntários são aprisionados no baú dos segredos familiares, do qual só muito rara e rapidamente são libertos, para consolo breve de alguém com dor similar. Quando eu, depois a avisar a meio mundo que estava grávida do primeiro filho, tiver que comunicar que o embrião não se desenvolveu, fiquei muito surpresa. Não com a solidariedade e com o carinho, mas com a enorme quantidade de casos semelhantes ocorridos com pessoas conhecidas – parentes até – sobre os quais nunca se ouviu sequer um suspiro.

Depois de saber desses casos reais e próximos, aquilo que, dito pelo médico, pareceu apenas consolo, fez todo sentido: que isso é absolutamente normal; que cerca de 30% da gestações não chegam a termo (talvez a porcentagem seja ainda maior quando da primeira gravidez); que não traz necessariamente nenhum problema para a gestação seguinte, etc.

Sei que a discussão sobre a legalização do aborto não compreende este aspecto, mas se não podemos falar sequer sobre os abortos acidentais, como poderemos debater outros quaisquer? Ninguém minimamente razoável passa incólume pela experiência de um aborto, seja de que natureza for. Dói pra todo lado, e a cicatriz fica pra sempre. Mas negá-la ou sublimá-la não ajuda quem passou por isso, nem que está por passar, nem quem pode passar um dia. E ninguém pode estar certo de que jamais se envolverá nessa situação – direta ou indiretamente, seja homem ou mulher. Falemos, pois.


Helena Costa

Aborto

28 de setembro é o Dia pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. O mote deste ano é: aborto – a mulher decide, a sociedade respeita, o Estado garante. A discussão, como tinha que ser, está na web:

Diário Vermelho
Nós na Rede sobre Aborto
Dossiê Aborto Inseguro
Ato Público das Católicas pelo Direito de Decidir

-Monix-

2:24 PM

Pessoas,

Ontem não postei cumprindo ordem da Rainha, que decretou feriado oficial no Reino da Opinião Não-solicitada. Não obstante, súditos e visitantes ocasionais estiveram aqui e em diversos recantos do ciberespaço deixando presentes de todos os tipos, tamanhos e formas – posts, recados, comentários, livros… E eu fui muito feliz. Obrigada por cada palavra e vibração positiva endereçada a mim. Chuvas do mesmo bom pra todos vocês.

Helê, versão 3.6

Poesia numa hora dessas?

Ela me entende (quase) mais que eu mesma
Me atende (ainda) mais que eu mesma
Me defende (sempre) mais que eu mesma.

Improvável cara-metade, sócia na aventura-blogue,
amiga, confidente, e parceira de vestuário:
Helena, feliz aniversário!

-Monix-

Rapidinha

Sabem como se diz ”brainstorm” no interior?
Toró de parpite.

Helê

Recados da Terra da Garoa

Fal, seus gatos são os mais gostosos, seu marido é o mais querido, seus livros são os mais invejáveis, sua mãe é a mais bacana e você é a mais fofa.

***

Vera, faça o favor de ganhar na Mega-Sena, eu quero aquele emprego.

***

Verdade Universal Masculina: com os homens, de fato, a gente precisa S-O-L-E-T-R-A-R.

***

Tô apaixonada.

***
Amo muito minha vida no mundo blog.

Trânsito Natalício

Uso a bolsa que ilustra o post anterior bem menos do que o texto faz supor. Acontece que nos últimos dias o Cabôco Gastadô encostou em mim e não sobe por nada. Suspeito inclusive que o Cabôco esteja mancomunado com os Erês, já que nasci no dia de Cosme e Damião. Talvez por isso eu seja tomada, no período próximo ao meu aniversário, por uma volúpia infantil de ter satisfeitas todas as minhas vontades. Então o monstro hedonista que mantenho a pão e água no porão escapa, assume o controle e se refestela no sofá da sala. E tudo que a sensatez e o orçamento cerceiam nas CNTPs (condições normais de temperatura e pressão) fica temporariamente permitido, ou tremendamente difícil de resistir. Sabe aquela imagem do anjinho e do diabinho brigando, cada um em um ouvindo, ditando ordens antagônicas? Pois nessa época meu anjo ganha chifres e o diabo, asas, e eles ficam assim, ó, amicíssimos. E sussurram em uníssono o mesmo mantra: ”Você merece, você merece, você merece!”

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Não é gastar por gastar, consumir sem pensar; apenas uma férrea necessidade satisfazer meus desejos – que neste mundo capetalista e pra esta alma materialista, envolve grana muitas vezes, direta ou indiretamente. Quando não, há outros perigos porque, como o rei Roberto, muito do que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda. Posso terminar a semana falida, presa ou rolando. Mas satisfeita, pelo menos.

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Uma das coisas chatas de envelhecer é que a gente tem que virar o nosso próprio pai. Transferem pra gente responsabilidades chatíssimas: controlar o que come, o que diz, quanto gasta – a gente quer e a gente nega; nós com nós mesmos! Isso é muito duro, viu?, filho e pai na mesma pessoa. Nesses meus trânsitos (ou seriam transes?) o pai só paga – vira avô.

foto: Adenor Gondim
Trilha sonora do post:
O Erê, Cidade Negra
Erê, Carlinhos Brown (Canções curiosas, Palavra Cantada)
Ilegal, imoral ou engorda, Roberto e Erasmo

Helê, ainda em versão 3.5

Post mulherzinha

A pessoa quando quer gastar inventa de um tudo pra justificar a gastança. Eu, por exemplo, quase sempre me convenço que economizei após uma compra. Assim, ó: entro na loja e separo 3 blusas, 2 saias, 1 vestido. Faço um cálculo de cabeça de tudo aquilo, muito por alto e muito pra cima, e concluo que minha compra custará, vamos supor, uns 500 reais. Entro na fase de negociação cerebral: tenho esse dinheiro? Não. Mas se eu dividir em zentas vezes, com um cheque pré e um pra (pra daqui há um tempão)… Então eu me conscientizo de que vou gastar quinhentas pratas, paciência. Aí vou provar e o vestido não fica como eu imaginei (menos 150 reais); uma das saias parece muito com outra que eu já tenho (- 80 reais – ôba!) e uma das blusas está com um defeito(-R$ 50!!). E voilá: saio da loja satisfeitíssima porque comprei 2 blusas, uma saia e ainda economizei 220 reais!

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E tem o outro prazer que é mostrar as compras. Assim como alguns homens precisam contar suas conquistas para os amigos, algumas mulheres não se contentam em comprar, nem em conseguir uma fantástica promoção: elas precisa contar isso pra outras mulheres:
– Tá vendo essa bata? Comprei por R$9 na IpisylonZê!
– Jura?!?!
– Demais, né?
– Arrasô, menina!
Faz parte do feminino – tá bom, tá bom, não generalizo: faz parte do ritual de certas fêmeas de muitas tribos – e eu faço parte de uma delas. Porque chegar em casa com aquelas coisas ma-ra-vi-lho-sas e guardar no armário assim, sem um comentário, é a morte. Pior que isso só cair na asneira de mostrar pro marido – que não vai valorizar sua economia, não vai dar nenhum gritinho pela blusa féxion e pior, quando você falar da mega-oferta de nove reais periga ele dizer ”Tudo isso?!”. O código penal prevê pena de 1 a 3 dias de abstinência nesses casos.

Helê, num momento mulherzinha descontrol

Antes tarde

O Equinócio Vernal
Duas vezes no ano, dia e noite têm a mesma duração. Para os antigos, esse era o tempo ideal para que as sementes fossem plantadas. O equinócio vernal simboliza um tempo de renovação, tanto na natureza quanto no lar. Mais que o esforço físico, a limpeza da primavera remove toda energia negativa acumulada durante os escuros meses de inverno e prepara a casa para o aumento da energia positiva da primavera e do verão.

Equinox and Solstice.com (TT – tradução tosca)

Embora não façamos mais rituais de celebração e agradecimento à chegada das novas estações, não deveríamos vemos viver como se elas não nos afetassem.
Portanto, boa semadura e primavera pra todos.


foto: Silvio Bahiana
Helê
Trilha sonora do post: ‘Primavera’, Tim Maia.

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