Mulher muderna

Hoje eu consegui incluir num mesmo diálogo desejos de ser hippie, de ser Gretchen e de esquiar em Aspen.
-Monix-

Mosé & Casé

O quadro de Viviane Mosé no Fantástico, ”Ser ou não ser?” é no mínimo interessante. Além de instigante e digno de registro e atenção, para ser cuidadosa com os adjetivos. Impossível não pensar que trata-se de uma ilha de bom-gosto e ousadia rodeada de mediocridade por (quase)* todos os lados. Eu não vi todos, mas todos os que vi deixaram em mim uma excelente e rara sensação, tratando-se de televisão: há ali alguém tentando, sinceramente, fazer algo diferente e bom para o maior número possível de pessoas. Chega a ser revolucionária a idéia de servir filosofia para o povão, o verdadeiro biscoito fino para massa (se me permite o respeitado Idelber). Por isso mesmo, deve ter acadêmico se revirando nos departamentos da vida (imagina a audácia, popularizar um privilégio tão caro a elite, pensar) e gente pronta a carimbar a iniciativa de demagógica. Eu não entendo o suficiente de Filosofia pra saber se o quadro faz jus aos conceitos filosóficos, mas ignoro o suficiente para gostar muito dele.

Só acho que neste último, em que ela citou algumas vezes Espinosa, sem explicitar que falava do pensador, deveria ter sido mais clara. Afinal, serviram como exemplos de conjunto e coesão o futebol e as escolas de samba, dando margem para que o telespectador desavisado lembrasse de outros Espinosas: o técnico (Waldir) e o carnavalesco Chico – também pensadores, cada qual a sua maneira.

***
*Ó, sim, eu digo quase porque tem outra ilha paradisíaco, no mesmo programa, que é o quadro da Regina Casé com as crianças. Aquele mulher tem o dedo bom, onde aponta sai coisa de qualidade, que respeita todos que participam – entrevistados e espectadores. Tudo isso sem esquecer o humor, esse luxo necessário. Numa levantamento mental rápido, não consegui me lembrar de nenhum programa dela que não tenha gostado (TV Pirata, Muvucão, Programa, Legal, Um pé de quê?, Cidade dos homens). No quadro atual ela se propõe a lidar com os interlocutores mais sedutores e envolventes, as crianças – que apesar disso, ou por isso mesmo, são difíceis porque espontâneos, imprevisíveis, manipuladores às vezes, dengosos e insinceros, eventualmente. Regina Casé evita o idiotizante tatibitate e o dispensável deslumbramento, mas também não resvala para a tentação de adultizar as crianças. Fica equilibrando-se com visível concentração e esforço, permitindo-se reações discretas e comentários pessoais, tentando não influenciar mas sem se anular. Uma delícia, em resumo.

Helé, querendo tirar uma casquinha do talento alheio..

New Orleans

Já há bastante tempo a definição de blogue como ”diário virtual” passou do prazo de validade, exceto para um ou outro jornalista desavisado (infelizmente são muitos…). Porque a blogosfera oferece estilos os mais variados e presta-se a serviços múltiplos, surpreendentes, comoventes até. Basta dar uma olhada no blogue do Idelber e emocionar-se com a angústia de quem viu sua ”segunda cidade” submergir pela força da natureza e por incompetência humana quase tão poderosa quanto a primeira. No Biscoito Fino os números da tragédia, por si só chocantes demais, tornam-se rostos e surgem como o que são de fato: pessoas e suas vidas, relações, relacionamentos, histórias, projetos. A cada amigo localizado eu me emociono junto, ainda que New Orleans seja para mim apenas um daqueles destinos programados pelo desejo e adiados pela realidade. Eu me solidarizo aqui, Idelber, porque achei que nem deveria ocupar o espaço da caixa postal ou dos comentários, melhor aproveitados para apelos, notícias e análises. Sim, porque com o passar dos dias, a dor vai cedendo espaço à indignação e ao debate. E uma das muitas tarefas espinhosas que a sociedade americana tem pela frente é localizar ponto exato onde se separam fatalidade e negligência.

Helena Costa

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