Meus heróis morreram, mas não foi de overdose

Outro dia assisti um filme ótimo, em DVD: Sacco e Vanzetti, de Giuliano Montaldo. Operários, anarquistas, italianos, eram imigrantes nos Estados Unidos e foram injustamente acusados de roubo seguido de assassinato. O julgamento foi eminentemente político e os dois foram massacrados pela opinião pública conservadora. Após sete anos de audiências, recursos, protestos internacionais, Sacco e Vanzetti foram condenados à morte na cadeira elétrica. O caso mobilizou a esquerda e o operariado internacionais. Na década de 1970, o governador democrata Michael Dukakis reconheceu oficialmente a inocência de ambos. Viraram heróis da causa proletária, mas só queriam viver em paz, de preferência num mundo menos injusto.

Dizem que nossa geração não tem ídolos. Pois eu tenho. Muitos, na verdade. Tudo bem que nenhum deles tem a minha idade, mas acho que isso é meio normal. Acho que para admirar alguém de verdade é preciso um certo distanciamento histórico.

O meu tipo favorito são aqueles que estavam simplesmente vivendo suas vidas de acordo com seus princípios, tipo os anarquistas Sacco e Vanzetti, até que de repente o sistema esbarrou neles. Em vez de se conformar e mudar de rota, se mantiveram firmes naquilo em que acreditavam, não importando as conseqüências. São pessoas que não escolheram viver e morrer lutando por uma causa, elas simplesmente eram o que eram e não queriam abrir mão disso.

Outra que merece toda a minha admiração é a costureira negra americana Rosa Parks. Num dia em que o cansaço era mais profundo que o normal, ela se recusou a ceder seu lugar no ônibus para um passageiro branco. Só que no Alabama, em 1955, ela não apenas infringiu a lei. Acima de tudo, ela contrariou o bom senso. Depois do protesto de Rosa, organizou-se um boicote de mais de um ano aos ônibus de Montgomery, a cidade onde ela morava. O líder do movimento era o pastor Martin Luther King Jr, já ouviu falar? Pois é. É possível que sem o incidente do ônibus, sem a determinação de Rosa Parks (que morreu este ano), a história do movimento pelos direitos civis fosse um pouco diferente.

Aqui no Brasil tivemos a brava Zuzu Angel, que se auto-intitulava costureira mas era uma estilista de renome internacional, que ajudou a criar a fama de inovação que a moda brasileira carrega até hoje. O filho de Zuzu, Stuart Angel Jones, era militante de esquerda e desapareceu durante a ditadura militar. Zuzu moveu céus e terras, mexeu todos os pauzinhos que pôde, inclusive nos Estados Unidos (Stuart tinha cidadania americana). Acabou descobrindo que seu filho foi barbaramente torturado na prisão e morreu de forma ainda mais bárbara. Zuzu lançou uma coleção que misturava, nas estampas, anjos feridos e tanques de guerra, criando assim o conceito de moda política. Isso em plena ditadura. Morreu num acidente de automóvel, que até hoje permanece sem explicação. Dizem as boas línguas que não foi acidente coisa nenhuma, e sim que Zuzu foi executada porque estava falando demais. Mas é claro que até hoje nada foi provado. (Para quem não sabe, a título de curiosidade, a colunista Hildegard Angel é a outra filha de Zuzu.)

Há muitas outras pessoas que admiro, essas são só algumas. E os seus ídolos? Quem são?

-Monix-

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