Meu carnaval inesquecível

Debutei no Sambódromo em 2001 – sim, porque ao contrário do que a Globo informa, amigo leitor do interior de Pernambuco, os cariocas não desfilam todos na Sapucaí todos os anos, tampouco vão à praia todo dia. Bem, como dizia, em 2001, eu, mi maridón e uma família amiga fomos pras arquibancadas populares, as que ficam antes do início do desfile pra valer. Aquela da farofa, que a galera chega às 4 da tarde e leva farnel, travesseiro, isopor…

Vi ao vivo – e com sabor totalmente diferente, claro – tudo aquilo que já havia me acostumado a ver pela TV: a Luma de Oliveira levantando o povo, eletrizante; Luiza Brunet, rainha nobre e majestosa, respeitada mas distante; o gari sambando para delírio da platéia; minha verde e rosa florindo a avenida.

Eu já havia dormido e acordado, e manhãzinha, dia clareando, preparava-se para desfilar a última escola, Grande Rio – que, não sendo uma escola tradicional, prendia muita gente na arquibancada apenas porque tinha como carnavalesco ninguém menos que Joãosinho Trinta – aplaudido de pé pela platéia das arquibancadas, num reconhecimento espontâneo e emocionante por tudo que ele já aprontou naquela avenida.

Tudo pronto para o início do desfile, comissão de frente a postos, arrumadinha à nossa frente, tudo certo e de repente… um barulho ensurdecedor… e toda a avenida atarantada passa a procurar de onde vinha aquele som e zuuuuuuuuuuuuuuuum!!! , passa um homem avoando na minha frente. Gente, eu ainda me lembro da minha emoção e excitação na hora (e quase sinto novamente), os olhos marejados, apertando o braço do Luciano e exclamando: ”O cara tá voando! O homem tá voando, Lu!!!” Eu me senti como uma criança, realmente; fiquei maravilhada com a emoção de ver algo tão inusitado pela primeira vez; ser colhida, arrebatada assim pelo inesperado, sem ter tido a menor suspeita de que poderia acontecer. As reações ao redor eram semelhantes: várias pessoas gritaram, assustadas e excitadas; a comissão de frente desmanchou, assim como as primeiras alas, pulando de alegria e entusiasmo; os jornalistas corriam para registrar e entender. Foi um momento absolutamente mágico.

No dia seguinte eu li jornais e revistas, assisti a todos os telejornais possíveis, mas nada conseguiu traduzir, nem de longe, a emoção daquela surpresa que nos fez, por breves segundos, recuperar a inocência, a capacidade de admirar-se com o novo e de vibrar com descoberta. Por essa emoção, Joãosinho Trinta, sou-lhe profundamente grata e devedora. Você fez daquele o meu carnaval inesquecível.

Helê
Curiosidade: Encontrei a foto que ilustra o post num site em que o repórter Luiz Carlos Azenha conta a sua versão da mesma história. Li depois de ter escrito o texto e é bacana como as sensações são semelhantes, vale a a pena comparar.

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