É feio terminar uma relação brigando, com raiva, maldizendo o desenfeliz que foi embora. É feio mas, vamos admitir, mas é fácil. Porque afinal, a pessoa era uma escrota, o que ficou provado quando foi embora, abandonando a gente sem explicação. Mas quando o outro se afasta com respeito e carinho, e entre nós ainda há afeto, é duro de engolir, viu?
Eu tô falando da empregada que trabalhou pra mim durante 10 anos e agora, doente, pediu pra ser demitida, pra não me atrapalhar. Falo da mulher que me conheceu solteira, morando sozinha numa quitinete; que me acompanhou quando casei, cuidou de mim grávida e deu o primeiro velocípede pra minha filha. De alguém que ao partir, antes de entrar no elevador, preocupada com uma pasta sumida, me recomendou rezar pra São Longuinho.

Eu vou rezar pra você ficar bem, Lu, sempre; que empregos e empregados a gente arranja; Deus provém. Já dedicação, lealdade e carinho quando a gente encontra guarda e vigia, tesouro que é.

Helê

Le Bruit e L’Odeur

Meu amigo Marcelo morou um tempo em Paris. Quando voltou, trouxe junto com as novidades dois CDs de uma banda chamada Zebda
Ele contou que uma das músicas, Le Bruit e L’Odeur, foi inspirada num discurso do Jacques Chirac quando foi prefeito de Paris, em que dizia mais ou menos o seguinte, numa tradução bastante livre, na medida do meu parco francês: o que pode pensar um trabalhador francês, que junto com sua mulher ganha cerca de 15 mil francos, quando um pai de família que tem 3 ou 4 esposas, uns 20 moleques (a referência aos imigrantes de origem árabe foi nesse tom pejorativo mesmo),recebe 50 mil francos do seguro social – sem trabalhar, naturalmente… e se juntarmos a isso o barulho e o fedor (le bruit e l’odeur), é de enlouquecer. E não é racismo dizer isso.Em seguida, Chirac conclui que é necessário abrir um debate moral no país para decidir se é natural que estrangeiros recebam os mesmos benefícios que os franceses, sendo que aqueles não pagam impostos (segundo informa o oráculo Google, o discurso é de 1991).
Bom, eu não quero escrever sobre o sistema de benefícios da França, nem entrar no mérito da questão sobre previdência. Já trabalhei em fundo de pensão, conheço as diferenças de sustentabilidade entre os modelos de benefício definido e contribuição definida, tenho acompanhado com moderado interesse os problemas dos países europeus para manter seu modelo de Estado e tudo mais.
Para mim, a questão que mais interessa nessa história é outra. Como vocês sabem, não sou atuária, economista nem administradora, sou jornalista. O que me move são as palavras.
Eu quero saber só uma coisa: se não é racismo se referir aos imigrantes como barulhentos e malcheirosos… o que é racismo, então?
Cartas para a redação.

-Monix-

Trilha sonora do post: Zebda

Domingo de Chico

Domingo de Chico

Eu preciso de mais pra ser ser feliz do que Chico Buarque em várias páginas coloridas, num domingo de manhã?

Não.

E quando eu penso que não tenho mais motivos pra amar esse homem ele aparece defendendo o Rio e fazendo música sobre o subúrbio!

Ele se supera. Eu suspiro.

Helê

10:24 AM
(3) passantes!

(Também) Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Pois eu também tenho uma relação intensa com a língua (ui!), repleta de admiração, fascínio e curiosidade. Com o português em especial, com as linguagens todas em geral, pela qualidade de comunicar, traduzir sentimentos, iluminar pensamentos, transubstanciar emoções. Eu não coleciono apenas títulos, mas também ditados, expressões, frases, trechos, versos – todos criados em cativeiro, plantados no quintal, reunidos em canteiros ou mantidos em estufas.

Por ora me ocorre colher duas expressões que eu adoro: hold your horsesrecuar os halfs. São precisas e, como todas as boas expressões, pictóricas; ou melhor: alegóricas. A primeira, para os que não tem intimidade com o inglês, traduz-se ao pé da letra por ‘segure seus cavalos’. Auto-explicativa. Quer imagem melhor de liberdade e insubmissão que cavalos à solta, correndo? Quando alguém diz hold your horses eu visualizo imediatamente o cidadão em cima da charrete puxando os bichanos pelo cabresto e ainda fazendo ôôôôôô!

Já recuar os halfs é elegante, charmosíssima; antiga mas não antiquada. Diriam os mudernos que é uma parada assimvintage. Porque vem do tempo em que os jogadores de futebol do meio campo se chamavam halfs (e os da defesa eram os beques, de back, atrás); e significa adotar uma postura defensiva, diante de um obstáculo ou ameaça. Eu (que tenho uma mente que funciona em modo desenho animado) também imagino na mesma hora a pessoa em questã chegando na beira do campo e dizendo ‘Recua, volta, volta que não tá na hora de pedir aumento, não!’

Ou, num exemplo mais atual: tipo assim, se a mina te falar prahold your horses na balada, você recua os half e vaza, sacô?

Helê

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