A Geni da vez

O assunto da semana passada foi a farsa-da-filha-que-matou-os-pais, mas eu vou te contar, não tenho menor paciência nem interesse nesse assunto. Nem mesmo do ponto de vista analítico, fazendo uma crítica à atuação da imprensa. Pra mim é o seguinte: matou, confessou, que cumpra a sua pena, ponto final. Detesto comentar o óbvio – sabe papo de elevador? ”Nossa, tá quente hoje né?” ”É. Você viu aquela garota, que absurdo?!”. Podendo, eu sempre evito bater palma pra maluco dançar, seja ele qual for. E desconfio sempre, e muito, de assuntos que ganham cobertura exagerada. Notícias têm um ciclo de vida que, quando alterado, camufla interesses ou neuroses.

Na semana passada eu fiquei muito chocada e comovida com a história da criança de 1 ano e 3 meses que morreu dentro do carro, esquecida pelo pai. Ressaltando que tudo o que sei li nos jornais – pode, portanto, não ser a verdade – o pai alterou seu itinerário e não deixou o filho na creche; ao chegar ao trabalho não percebeu que ele ainda dormia na cadeira do banco traseiro. Horas depois, sentindo um mal estar difuso, decidiu ir ao hospital e ao entrar no carro encontrou o filho, já inconsciente. A primeira coisa que vem à cabeça é: ”Mas como pode esquecer um filho?!” Essa é a pergunta que todos se fazem – inclusive e principalmente o pai. Porque até onde se sabe, o cidadão em questão não é um monstro frio, um psicopata, nem um abusador de criança ou marginal. Tudo leva a crer que ele, um paulistano classe média de 35 anos, pai de uma menina de 9, administrador, é alguém feito eu e você. E isso sim, é aterrador.

Sobre isso eu gostaria de falar e refletir, embora seja incômodo e doloroso. Não sobre esse caso, mas sobre o que ele pode ensinar a respeito da nossa rotina insana e automatizada, sobrenegligências e acidentes domésticos, responsáveis por estatísticas pavorosas e ocultas sobre mortes e graves seqüelas de crianças no Brasil. Falar sobre isso parece-me muito mais útil que jogar pedra na Suzane (esporte nacional, agora patrocinado pela Globo). Apontá-la como monstro não a redime nem sequer a pune, só melhora a nossa percepção de nós mesmos, reforçando a idéia de quanto somos bons, frente àquela criatura. E pode ser bastante perigoso colocar todo o mal no outro, como se ele não pudesse rondar nossa casa, nossa mente, nosso coração.

Helê

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