Sociedade das Mulheres Vivas

Sociedade das Mulheres Vivas

Quando ”O sorriso de Monalisa” esteve em cartaz eu pensei em ver, mas temi que fosse apenas mais um filme de colégio, tipo ”Ao mestre com carinho” ou ”Sociedade dos poetas mortos”. Acabei não vendo na telona; mas assisti sem arrependimento no dvd.

Sim, é um school movie com um grupo de alunas de diferentes temperamentos e destinos, mas ”O sorriso de Monalisa” dribla o óbvio em vários momentos. E é antes de tudo um cuidadoso retrato do universo feminino e dos padrões impostos às nós mulheres na década de 50, 60 do século passado. Para a minha geração, que curtiu ”Grease” e ”Estupido Cupido” na infância, achando graça da juventude das nossas mães, fica claro que o buraco era mais embaixo, mui abajo…

Foi Monix quem me alertou que o filme ajudava a entender melhor de onde vieram, ou melhor, onde estiveram essas mulheres que nos geraram e geriram, contra as quais colidimos com mais freqüência do que gostaríamos. E, sobretudo, de quem quase nunca temos distância suficiente para olhar como de fato elas são: mulheres também geradas e geridas por outras mulheres, a partir de outros valores, muitas cobranças, todas as dúvidas.

Essa geração da minha mãe ainda presenciou uma espécie de ”aceleração do tempo”, já que o mundo parece ter rodado muito mais rápido entre 50 e 60 do que é possível numa década. Minha mãe, em 1967, tinha ”só” e ”já” 18 anos: casada e mãe, tinha responsabilidades demais pra desbundar, ao mesmo tempo em que era jovem demais para ignorar a revolução social, cultural e sexual que acontecia a sua volta. Como muitas mulheres dessa época, ela ficou na esquina entre os anos 50 e os 60. Uma geração de mulheres educadas pra casar, mas que se separaram; formaram-se, mas nem sempre conseguiram fazer uma carreira de destaque; educaram os filhos oscilando entre Piaget e Pinochet, ou seja, entre a pedagogia e a palmada.

”O sorriso de Monalisa” retrata de modo eficiente uma época não tão distante quanto parece, e cujos efeitos ainda somos capazes de sentir. Não é nenhuma obra-prima, longe disso, mas é um filme honesto e bem feito. E sobre o qual recai, claro, certo preconceito. Nas críticas que encontrei na internet, há muitas referências a ele como um ”filme de mulheres” ou ”para mulheres”. Ainda que seja sobre mulheres, significa que só a nós interessa? Por que um filme como ”Sociedade dos Poetas Mortos”, de elenco quase completamente masculino, é universal, e ”O sorriso” é de menina? O feminino é específico, o masculino é universal? Ora, francamente! Além do mais, se em vários aspectos os dois filmes se parecem, ”Monalisa” é infinitamente mais solar e positivo que ”Sociedade”; portanto, viva a diferença, mesmo!

Helê

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