Cariocas

Trilha Sonora no Dufas Dial

O nosso novo colega digital Marcos VP escreveu um postlistando as dez características dos cariocas que mais o irritam. Nós somos cariocas convictas, daquelas que se orgulham da cidade apesar (e um pouco por causa) dos defeitos. Nossa primeira reação foi com o fígado: como alguém pode escrever tantas coisas desagradáveis sobre os cariocas, logo os cariocas, tão bacanas?
Mas temos que admitir que o Marcos tem alguma razão. Embora achemos que ele está sendo ligeiramente mal-humorado, os defeitos que ele aponta de fato existem. Vestimos a carapuça, pronto. (Mas só em parte, porque na verdade muito do ele diz se aplica aos brasileiros em geral e não apenas aos que habitam a mui leal e heróica cidade de São Sebastião)
Mas, como cariocas são acima de tudo bem-humorados, resolvemos, se não virar o jogo, pelo menos empatar a partida. Nós amamos ser cariocas porque:

1. O carioca é irreverente. A gente sabe que as leis existem para serem cumpridas. Só que não gostamos de rigidez, não gostamos de ser engessados por mil e uma regras. Os cariocas do bem respeitam os outros, mas respeitam, sobretudo, seu espírito livre.

2. O carioca é exibido, não porque se acha melhor que os outros, como disse o VP, mas sim no sentido oposto, não aceitando que os outros sejam melhores que nós. Amor-próprio é a chave da questão. Já disseram que “o que é bonito é para se mostrar”: nós acreditamos.

3. O carioca é ufanista porque gosta muito do seu próprio jeito de ser e adora quando suas invencionices e modismos são adotados em outros cantos de nosso continental país. Nós nos amamos tanto que queremos mais é democratizar a carioquice.

4. O carioca é original: gosta de ousar, de criar, de fazer as coisas de um jeito diferente. Uma das coisas que mais incomoda um carioca legítimo é saber que não se destacou na multidão. Ou, como dizem que disse Caetano Veloso, o problema do Rio de Janeiro é que aqui não se sabe onde acaba o palco e onde começa a platéia, or something like that.

5. O carioca tem jogo de cintura. Se as circunstâncias estão adversas, inventamos uma maneira de reverter o quadro a nosso favor. A gente sabe que nem sempre as coisas são fáceis, e por isso mesmo nos preparamos para contornar as dificuldades. Nem sempre a gente consegue, mas ninguém pode dizer que desistimos antes de tentar.

6. O carioca é deslumbrado. Estamos mal acostumados com tanta beleza, providenciada pela natureza ou construída pelo homem. Seja no Pão de Açúcar ou no estádio do Maracanã, na Floresta da Tijuca ou na Cinelândia, no bondinho de Santa Teresa ou na Praia de Ipanema, na Central do Brasil ou no Parque da Pedra Branca, na Casa de Burle Marx ou em Grumari e na Prainha, o fato é que a cidade mima demais seus habitantes. Nosso padrão de exigência pode ser meio alto, mas temos nossos motivos. Como já disse o paulista Ricardo Freire, viajante profissional, em seu antológico texto “Valsa de uma Cidade”Se algum dia me perguntarem por que eu viajo, eu vou responder: para ver se encontro algum lugar mais encantador que o Rio de Janeiro. Até hoje, não encontrei.

7. O carioca é animado. A cidade pede trilha sonora. Berço do samba, da Bossa Nova, do funk carioca, aqui acontecem shows bacanas, festas alto astral, bares lotados. Podem dizer que nos últimos anos o movimento à noite diminuiu por causa da violência… Vá à Lapa numa quinta à noite, ou ao Artplex num sábado, ou a qualquer baixo da moda, ou a Vila Isabel. Depois a gente conversa.

8. O carioca é relax. Dizem que as cidades praianas costumam ter uma população mais “descansada” que as demais. Aqui vivemos numa metrópole à beira-mar, e a característica balneária se espalhou por todos os bairros, mesmo os que não recebem a brisa marítima. Cariocas têm pressa, sim. Trabalham, e muito. Espremem-se nos ônibus e trens e encaram horas e horas de deslocamento todos os dias. Mas nossa tranqüilidade existencial não pode e nem deve ser roubada de nós. Assim esperamos.

9. O carioca é otimista. A gente sabe que a cidade está suja, mal cuidada, que as empresas estão indo embora, que os empregos estão acabando. Quase todo carioca de classe média conhece pelo menos dez conterrâneos que se mudaram para São Paulo a trabalho e não voltaram mais. Muitos fazem planos de partir em breve. Mas e daí? Só porque a vida está ruim, a gente vai deixar de ver o lado bom das coisas? Ser feliz aqui e agora não é um dos preceitos do zen-surfismo? Cariocas preferem acreditar no melhor. E acreditam.

10. Por fim, ser carioca é pra qualquer um. Porque na verdade essa história de “o carioca é assim”, “o carioca é assado” é tudo generalização, e da grossa. Cada carioca é de um jeito, cada baiano é de um jeito, cada novaiorquino é de um jeito e por aí vai. Por outro lado, é verdade que os habitantes das cidades criam uma certa afinidade cultural e de comportamento. Aqui, o espírito carioca nos permite acolher de braços e coração abertos os forasteiros que escolhem nossa cidade para viver e amar. A lista de cariocas adotivos e honorários ganha novos membros toda semana, todo mês, todo ano. Se um dia o Marcos VP quiser mudar de idéia, a gente pode até chamá-lo de carioca – isso é, se ele não se ofender. 😉

Aish Duaish Fidaish

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Helê

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