Filhote da ditadura

Lembro da campanha do Sujismundo; do medo que eu tinha do meu tio hippie e cabeludo; da PE patrulhando as ruas; do Figueiredo dizendo ao Alexandre Garcia que prefere o cheiro dos cavalos; da Semana do Presidente nos intervalos do Sílvio Santos; do certificado de censura assinado pela Solange Hernadez; do disco do Chico que incluía Tanto Mar sem letra; da Lei Falcão e as “ameaças à segurança nacional”; das paradas do 7 de Setembro; das bandeirinhas verdeamarelas e da vergonha de ser patriota; do esquadrão da morte e do Mão Branca; da inflação batendo os 100% ao ano pela primeira vez na história do Brasil; do Golbery e do Delfim Netto; do maiô-cortininha que as grávidas usavam antea da Leila Diniz; do Pinochet e do Stroessner; de um tempo em que ninguém podia ir a Cuba, em que o Globo era do mal e o JB era do bem; dos meus tios comunistas cantando “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, chamando os filhos para irem embora da casa do meu avô, que era da direita católica; das primeiras eleições para governador (“Nem Miro nem Sandra, e pra ser Franco, nem Moreira. PT Saudações, voto em Brizola”, era isso que diziam); da volta do Gabeira, de tanga de crochê em Ipanema; da campanha pelas Diretas e da emenda Dante de Oliveira, rejeitada no dia do meu aniversário; do julgamento do Doca Street; das pichações nonsense LERFAMÚ e Celacanto Provoca Maremoto; das pessoas que diziam “golpe” e das pessoas que diziam “revolução”; da proibição dos grêmios escolares, que eu só soube que existiam quando avisaram que estavam liberados; do Renato Russo e os filhos da revolução; da minha amiga que tinha “pai desaparecido”; da Casseta e do Planeta, que eram turmas diferentes (as duas tinham graça).

Lembro de tudo isso. Esse post foi escrito de memória, sem consulta ao Google, a livros, a jornais, após assistir Zuzu Angelno cinema, que, by the way, adorei. Confesso que vivi.

-Monix-

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