A Verbeat divulgou os resultados da primeira Pesquisa Blogosfera Brasil. Vale a pena conferir.

4:44 PM
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Gracinhas

Vamos combinar que se sair bem na Marília Gabriela é uma coisa; na Hebe é outra muito mais difícil. E elas saíram-se bem naquele sofá que é tudo – espetáculo, diversão, show – menos entrevista. A Hebe é uma gracinha, mas tem DDA em estágio avançado, fala de uma coisa e depois emenda em outra, sacaneia o gordinho na platéia e depois termina sempre sorrindo e achando tudo uma graça. Ela fez perguntas pertinentes, como por exemplo se as motherns acham adequado que as grávidas mostrem a barriga, como fez pioneiramente a Leila. Ela, Hebe, não gosta, afinal barriga é coisa íntima (!). Ah, também perguntou que castigo merecem as mães que esquecem o filho no carro e vão fazer compras no shopping – ao que a Ju respondeu, livrando-se elegantemente da saia justa e da falta de noção, que o fato em si já é castigo suficiente (ufa!). Mas em meio a tudo isso – às jóias e ao decote inacreditável e desnecessário da Hebe, entre o grupo revelação e a Dionne Warwick -, as duas conseguiram falar do livro e do blog; a Ju, didática e acertadamente, explicando o que é um; da importância do livro de visitas como fórum de discussão. Fizeram até a própria Hebe falar de um perrengue materno e usá-lo como exemplo da dureza dos primeiros tempos, pra toda e qualquer mãe. Acho que a Hebe não entendeu do que se tratava, mas as meninas saíram-se muito bem, com louvor.

Helê

Sobre violência

Trilha sonora do post no Dufas Dial: ouça e leia.

Hoje há mais uma postagem coletiva, sobre a qual eu pensei muito antes de participar. Porque, vocês sabem, meu movimento preferido é o ”Chega de basta!”. E eu não me interesso em discutir violência urbana sob o ponto de vista da (minha) classe média. Nem tenho a ousadia de dizer que é errado ou inadequado, não, apenas não me interessa.

Por isso eu só consegui pensar nesse texto, que li há mais de um mês e do qual não me esqueci. Porque qualquer um que já viveu minimamente perto da periferia, de qualquer periferia, vai se identificar com ele:

Enquanto eu olho a paisagem imensa e linda da zona sul do Rio de Janeiro, a Deni, minha vizinha de Santandré, aguarda a chegada do corpo do filho, o Gu, morto essa noite numa viela do bairro. Deni tem mais três filhos: Daniel, o mais velho, está preso, Willian, o segundo, também está preso e Edinho, o caçula, sobrevive em meio às farpas do cotidiano da periferia.

Na rua onde me criei todo mundo morreu, tá preso, casou por desespero ou virou evangélico, e todas essas pessoas fazem parte da minha história. O Kleber, meu primeiro amor adolescente, morreu numa escadaria. Filho único, deixou uma mãe linda e desesperada que acaba seus dias na ingreja evangélica do bairro, onde enterrou a juventude e qualquer ousadia dos seus muitos decotes bem definidos. Na morte do Kleber, ela morreu no dia-a-dia.

Daniel, irmão do Gu, é lindo, olhos quase verdes. Dizem que é um assassino frio, mas na nossa infância era só o guri cobiçado, o rapaz das brincadeiras. Willian, tb da família do peixeiro (o marido da Deni é peixeiro) sempre foi arredio, sarcástico. Matou um policial e vai mofar no presídio. Edinho é muito mais novo do que eu, mas já passeia por aí com seus piás. A Deni é da igreja da mãe do Kleber mas, como se vê, Deus não deu muita bola pra essa união familiar.

Denise, minha melhor amiga na infância e adolescência, casou com o Wilson, meu ex-cunhado. Faz quase dois anos que não os vejo, mas torço para que eles tenham optado por algo mais sadio do que viver o futuro preparado, encaixotado. Wend, meu namorado durante 6 anos (irmão do Wilson), casou-se, mora na Praia Grande, tem 3 filhos lindos e, me parece, uma bela carreira na Igreja do Evangelho Quadrangular. Sim, rapazes e moçoilas, meu ex-amor (pq eu amei o Wend) está estudando pra ser pastor e, conhecendo bem sua capacidade argumentativa e seu raciocínio brilhante, será próspero e galgará todos os degraus hierárquicos do mundo de Jesus.

E essas histórias se multiplicam pelas esquinas, sobrados mal-acabados e bocas-de-fumo. Por isso, e por outras tantas razões, eu detesto Santandré. E quando eu digo isso, mais do que sobrevivente, me sinto fugitiva: saí de lá às pressas e deixei o mundo continuar queimando em pólvora. Hoje, dona que sou das minhas gaiatices, emprego bom, cultura encapada e conhecimentos inúteis, velo solenemente mais esse corpo da minha história que cai e se esvai aos vinte e não muitos anos.

Deus está morto…e o Gu tb.

Escrito pela Gio, no sempre bacana Verbo e Devaneio

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