Quando envelhecer é um privilégio

Janeiro 21, 2007

Sugestão: leia ouvindo a trilha sonora Tempo I no Dufas Dial.

A bem da verdade sempre é, porque só não envelhece quem morre – e como diz Veríssimo Meu Rei, morrer é última coisa que eu quero que me aconteça. Mas somos catequizados insistentemente, diariamente para acreditar que envelhecer só nos traz melancolia, cabelos brancos, saudade, ‘ismos’ e ‘oses’ terríveis, só perda e desolação.

Ocorre que há prazeres únicos que só o tempo traz (ainda que esse tempo varie de um para outro). E em geral são ganhos preciosos e únicos, capazes de deixar a alma leve e o coração pleno. Tanto que nos fazem pensar que todas as desvantagens são irrelevantes, tarifas quase simbólicas. Eu, por exemplo, sinto que o tempo está a meu favor quando…

*…danço com meu sobrinho Danilo na festa de reveillon o funk engraçado e o samba sincopado; quando ele me manda um mp3 de um novo cantor (e eu gosto); quando empresto meus livros pra ele. A experiência de ver crescer uma pessoa e descobri-la assim, ‘gente fina, elegante e sincera’ (como sabiamente definiu Lulu), enche você de esperança e de orgulho (mesmo que você não tenha participação na criação do cidadão). Perceber vínculos e afinidades para além dos laços sanguíneos e das convenções sociais, sacar que aquela é uma pessoa interessante, querida e ainda por cima é da sua família – que sorte, heim?!

*… penso na Andréia e me dou conta dos nossos mais de vinte anos de amizade. A gente finge que não gosta de falar sobre números nem de fazer as contas, mas é só pra disfarçar o orgulho danado de encontrar e manter uma amizade por tanto tempo, crescendo, amadurecendo, sofrendo, aproveitando a vida juntas. Oh, sim, houve momentos de maior e menor proximidade, intensidade e dedicação – afinal, uma amizade é uma relação de amor e como tal está sujeita a desgastes. Por isso mesmo é tão reconfortante saber que o sentimento e a intimidade sobreviveram ao tempo, ou por outra, alimentaram-se dele para fazer de nós quem somos, e nos manter amigas.

*… meu amigo Marcelo nos contou que vai ser pai com empolgação de menino, a alegria exalando por todos os poros. Porque ele precisou de um certo tempo – nem muito nem pouco, apenas muito particular – para permitir-se essa espera, e agora está totalmente entregue. Ele era daqueles sem-filhos convictos, sabe como? Pois é, tanto que a minha reação natural seria sacaneá-lo, lógico – como fazem os amigos, especialmente os cariocas. E eu o teria feito, não fosse tão genuína a emoção dele com essa promessa de vida no coração.

*… olho pra minha filha, todos os dias (last but not least). Essa era a ”baba” da lista porque a experiência de ter filhos e observá-los crescendo, definido personalidade, desejos, jeitos é simplesmente fascinante. Na maior parte do tempo a gente está muito envolvido na função, decidindo, educando, reprimindo, estimulando, e centenas de outros gerúndios. Mas não são raros os momentos em que a gente se encontra no papel de observador, e assiste aquela pessoa formar-se, exibindo, às vezes, um matiz ou tom parecido com os seus; em outras vezes, nuances e sons totalmente inesperados, para nosso espantando deleite de acompanhar um mistério.

E você, em que ocasiões o tempo lhe sorri?

Helê
PS: Este post vai pro Marcelo, pro Danilo, pra Júlia e pra Andréia, claro, que eu amo e me ensinam a sorrir para o tempo e receber o bom e o bem que ele oferece.
Ah, e o samba vai pra Dorival Caymmi, João Gilberto e Caetano Veloso! Hahahahaha!

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