Fevereiro 23, 2007

Fevereiro 23, 2007

E se o menino se chamasse Wesleysson, morasse no Complexo do Alemão, o carro fosse um Corcel velho sem licenciamento no Detran, a mãe fosse empregada doméstica e o pai desconhecido? Alguém ia reclamar? Alguém ia sequer notar?

Li em dois blogues de moços que respeito críticas indiretas e muito gentis a nossa omissão em relação ao assunto do momento, a morte do menino no assalto brutal.

É verdade, eu não estava mesmo querendo falar sobre isso.

Em primeiro lugar, porque, como mãe, é tão absurdo imaginar o que aconteceu que realmente prefiro nem tocar no assunto para não lembrar. Esse é o motivo egoísta, alienado, chamem como quiserem.

O outro motivo é menos emocional e mais intelectual, se é que posso chamar assim. É que eu acho tão cafona, tão ingênuo, tão inútil essa indignação a cada evento violento. É tão classe média, no mau sentido, fazer passeatas vestindo branco ou preto, bater palma pro avião com a faixa que passa na praia, colar cartazes pedindo alguma coisa que ninguém sabe bem o quê.

O problema da violência no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, é tão complexo, envolve tantas variáveis, que uma passeata a mais não vai fazer a menor diferença. E eu sinceramente (com todo o respeito a quem se comoveu genuinamente) acho meio perigosa essa sensação de que “pelo menos estamos fazendo alguma coisa”. Eu acho que não estamos fazendo nada. Ou pior: estamos mais uma vez nos indignando com algo que nos atingiu no que temos de mais pequeno-burgueses, reclamando (com razão, é verdade) porque nossa vida de privilégios num país de Terceiro Mundo foi afetada, nossa bolha mais uma vez se rompeu, antes de se formar novamente.

No dia que for convocada uma passeata que reúna na praia de Ipanema não só os moradores do asfalto, mas também o pessoal do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho, podem contar comigo. No dia em que depois da passeata for promovida uma reunião entre as associações de moradores da Zona Sul e os representantes das favelas, eu posso me despir da minha descrença. No dia em que os moradores dos morros forem considerados cidadãos, eu visto branco, preto ou a cor que quiserem.

Enquanto houver cidadãos de primeira classe, com direito a tudo, inclusive à indignação, e não-cidadãos de segunda categoria, que ficam de fora tanto das festas quanto dos protestos, me desculpem, mas eu não vejo sentido nem em começar a falar sobre o assunto. Por isso acabo me calando. Porque fico aqui achando que deve haver muita gente do “outro lado” da nossa sociedade indignada com a barbárie. E com muito mais razão que nós, aliás. Mas eles não podem fazer passeata, senão nós vamos pensar que é arrastão.

-Monix-

Helê, acabei atrapalhando um pouco o seu clima de carnaval, mas o Dufas é isso aí. Aliás, o Rio de Janeiro é isso aí.

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