Mamonas Assassinas – 11 anos depois

Março 05, 2007



Na sexta-feira passada, 2 de março, completaram-se 11 anos da morte dos Mamonas Assassinas. A propósito, publico agora um post rascunhado no ano passado (!) e concluído hoje (eu procrastino, eu procrastino….).

Quando pensei em escrever sobre o assunto vi dois caminhos: um mais mórbido e triste, outro mais alegre. Mas porque escolher entre um e outro, e não experimentar ambos?

– A morte trágica, brutal e inesperada dos Mamonas junta-se a uma tristíssima coleção, especialmente dolorosa. Mortes que acontecem em momentos felizes ou promissores – e, em casos como o deles, com vítimas muito jovens. Impossível não lembrar da queda do avião com Ritchie Valens, então um cantor de 17 anos que estourava naquele momento com La Bamba (no qual morreram outros artistas). Isso foi em 1959 e eu não era nascida, mas Don McLean tratou de eternizar o episódio compondo a belíssima American Pie, sobre the day the music die.

Outro caso que me ocorre, em outra área, é a morte do atacante Dener. Dessa poucos vão lembrar porque ele apenas despontara na Portuguesa, era muito jovem, acabava de assinar contrato com o Vasco. Morreu num acidente de carro, enquanto dormia. Quem o viu jogar lembra até hoje de seus dribles e suspira, pensando em tudo que ele poderia ter jogado. A morte de Leila Diniz também aperta o coração porque ela estava, provavelmente, vivendo seu momento mais feliz, com a filha que tanto desejou. Mesmo a morte de Lennon, que não era tão moço e acreditava já ter sido mais popular que JC, tem um componente especialmente triste quando a gente sabe que ele estava recomeçando a relação com Yoko depois de um tempo separados. Por isso Starting Over me é tão tocante, porque é a canção de alguém fazendo planos para um futuro que não veio.

Antes que alguém me acuse de blasfemar, eu não estou colocando na mesma prateleira de importância todas essas pessoas. Eles apenas se irmanam, infelizmente, nas circunstâncias cruéis em que morreram: em momentos felizes de suas vidas, no começo do sucesso ou na retomada de um projeto ou amor. Fica esse gosto de ”tudo que podia ser”. Nunca saberemos se o Dener chegaria à seleção e seria, por exemplo, o destaque da copa de 94. Ou se os Mamonas sustentariam o sucesso e a empatia por mais um cd. E essa saudade do que poderia ter sido tem um gosto muito amargo.

– Agora, o caminho da alegria para lembrar dos Mamonas: primeiro confessando que eu gostava e me divertia horrores. Até hoje eu coloco o disco vez em quando. Na época eu já não era, digamos, o público alvo do grupo, e quando ouvi no rádio a primeira vez arrotos e quetais eu torci o nariz, ainda que mal-disfarçando um risinho no canto da boca. Na primeira vez que vi os caras cantando na tv eu me rendi: eles eram muito engraçados, espontâneos e inteligentes (além do Dinho ser uma graça, vai). O disco deles era a trilha sonora indispensável nas festas infantis da família, em que as crianças se esbaldavam e os adultos, com a desculpa de diverti-los, tiravam lascas da mesma alegria.

Não quero transformá-los em algo que maior do que eram pra justificar meu gosto. Mas acho que havia ali algum talento: o único cd deles tinha forró, pagode, vários gêneros bem executados. Por trás das letras adolescentes havia uma cozinha musical bem feita. Mesmo as letras, de um humor escrachado e escatológico, não se limitavam às rimas fáceis do tipo ‘amar’ com ‘cantar’.

Por tudo isso, considero que os Mamonas pertencem a uma tradição da música popular brasileira que eu já pensei até em transformar em objeto de estudo (uia!), que é a ‘música de humor’: música feita para divertir. Haveria alguma dificuldade em isolá-la cientificamente, porque o humor permeia e marca intensamente a música, como de resto, qualquer outra manifestação cultural brasileira. Mesmo num bolerão-dor-de-cotovelo aparece ‘a ponta de um torturante band-aid no calcanhar‘ pra confundir os sentimentos e nos fazer sorrir. (Diga-se de passagem, o Aldir Blanc é mestre em fazer essa misturinha furta-cor de graça e dor nas suas letras, descrevendo detalhes do cenário ou figurino, personagens reconhecíveis e citando marcas populares, como perfume da Coty ou Slopper da alma).

Talvez o rigor científico necessário e o medo de que ele pudesse tornar chato um tema sedutor tenham me impedido de levar adiante a idéia de pensar sobre essa tal música de humor, uma extensa estirpe presente nas marchinhas de carnaval, que passa por repentistas nordestinos, partideiros cariocas, roqueiros rebeldes. Gente como, por exemplo, Eduardo Dusek e sua inesquecível performance cantando Nostradamus, e o ainda impagável Cantando no banheiro. Ou grupos como Joelho de Porco ou o Premeditando o Breque, este mais conhecido por Rubens (uma melô da Brokeback Montain escrita muitos anos antes do filme) – mas que tem pencas de canções hilárias e geniais.

Novamente, não estou comparando talentos, mas identificando um ”cromossoma musical” que ora surge dominante, ora recessivo na nossa música, mas que está lá, pra quem quiser ouvir e rir. Quem encarar ao desafio de analisar, catalogar e sistematizar esse trem, favor não esquecer dos meninos dos Mamonas.

Helê

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