Coisas para fazer no Rio – Parte II versão da Monix

Maio 04, 2007

– Flanar sem rumo na Lapa: o bairro carioca que virou sinônimo de malandragem recebeu um sopro de revitalização, e daqueles do melhor tipo. Porque às vezes acontecem uma “revitalizações de áreas decadentes da cidade” que não passam de uma idéia maluca de um prefeito – não que assim não funcione, mas é aquela coisa artificial, que demanda um monte de investimento público, obra superfaturada, tráfico de influências e aquela história toda que a gente conhece. Com a Lapa foi diferente. O processo todo começou há, sei lá, uns 20 anos, quando o Circo Voador saiu da praia do Arpoador e veio se instalar atrás dos Arcos. Depois foi a Fundição Progresso. Aos poucos, os botequins da região foram recebendo os maurícios e patrícias da Zona Sul, que iam ou voltavam dos shows e gostavam de cerveja, sinuca e de um certo ar alternativo, um certo jeito de não ser igual ao resto do rebanho. Lá por meados dos anos 1990, um antiquário da Rua do Lavradio resolveu chamar um grupo de choro para aproveitar o espaço à noite e passou a servir uns petiscos. O sucesso foi tanto que hoje a venda de antiguidades virou um charme a mais no que se transformou numa verdadeira casa de espetáculos. A partir daí, as coisas começaram a acontecer em ritmo mais rápido. Hoje, a impressão que dá é que a cada semana abre um barzinho novo, uma casa de samba, um lugar bacana. Minhas dicas são dois lugares charmosos e nem tão badalados (porque falar de Teatro Odisséia, Estrela da Lapa, Carioca da Gema e outros do mesmo quilate nem precisa, né?). A primeira é a pizzaria Encontros Cariocas, dos mesmos donos do Carioca da Gema, que além de ser super charmosa serve umas pizzas bem gostosas. A segunda é o Café Sacrilégio, no mesmo quarteirão, que tem um clima muto bacana, música boa, ambiente descontraído, e, o melhor, não costuma ficar com tanta fila na porta quanto as opções mais badaladas. (Saiba mais sobre o charme da Lapa)

Ver um filme no Arteplex: eu sou da geração que viu nascer o complexo Estação Botafogo. O primeiro cinema foi criado num antigo pulgueiro ali perto do Metrô (daí o nome “Estação”) e ainda tinha nome de Cineclube, porque a idéia era essa mesmo, umas coisa para poucos, filmes selecionados, um papo super cabeça. Com o tempo, o circuito cresceu, absorveu salas que já existiam – como o tradicionalíssimo Paissandu e um cinema especializado em filmes de sacanagem no final da rua Voluntários – e criou outras, em geral pequenas, charmosas e com uma programação de filmes independentes ou, pelo menos, alternativos ao circuito principal. Talvez por causa disso, nunca gostei de cinema de shopping. Para mim, cinema bom é cinema de rua. Mas a verdade é que os tempos são outros, e os cinemas de shopping praticamente venceram a batalha. Daí que um cinemão de rua moderninho, com várias salas, livraria, bistrô, diversas opções de filmes e horários, enfim, tudo isso tem lá o seu valor. Há uns dois anos me mudei para um bairro em que posso ir a pé a nada mais, nada menos que 18 salas de cinema (incluídas aí as do shopping, que eu evito, mas o fato é que elas estão lá). De todas essas, a opção mais próxima, mais simpática e que tem apresentado os melhores filmes é o Arteplex. Já fui até lá sozinha, num sábado à noite, sem nem saber que filmes estavam em cartaz, só pelo prazer de estar num lugar que adoro. (E assisti um filme ótimo, e voltei pra casa feliz.)

Passear na Lagoa: eu também sou do tempo do Tivoli Park, com a roda-gigante, as montanhas-russas (pré-looping e pós-looping), o amor-expresso e muitos outros brinquedos que fizeram a alegria de muitas infâncias. Mas isso passou, o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas passou a ser considerado área de proteção ambiental, o Drive In virou Estação do Corpo (numa substituição sintomática de cinema por ginástica, o que do ponto de vista de uma pesudointelectual sedentária como eu é no mínimo um equívoco, mas o que se há de fazer?) e os vendedores ambulantes de coco foram substituídos por quiosques metidos a besta e a máfia dos brinquedos – mas eu adoro tudo isso. Os restaurantes ao ar livre são uma delícia, a maioria deles com comidinhas chiques e caras, do jeito que eu gosto, e a melhor vista da cidade. Os brinquedos são meio bobos e com precinho salgado, mas as crianças se divertem. Por um lado é uma pena que uma área de lazer que deveria ser gratuita e de acesso democrático seja, na prática, um programa que, com crianças, não sai por menos de 40 reais, entre o lanchinho, os brinquedinhos, o pula-pula, a piscina de bolas etcetera e tal. Mas a verdade é que passear na Lagoa, de dia ou à noite, com ou sem filho, é uma delícia. O destaque entre os quiosques fica com o Palaphita Kitch, que tem a decoração mais original, as bebidinhas mais bacaninhas e, infelizmente, o precinho mais salgado.

Ver a vista do MAM: O Aterro do Flamengo tem uma das vistas de cartão postal mais bonitas e conhecidas da Cidade Maravilhosa. O óbvio ululante Pão de Açúcar está lá, para quem quiser (e quem não quiser) ver. O Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial (mais conhecido como Monumento aos Pracinhas) também comprovando que Oscar Niemeyer, como arquiteto, é um grande escultor (o mom=numeto em forma de muleta, é, na verdade, a maior piada de mau gosto já erigida pelo ser humano, mas abafa o caso). Seguindo em direção ao aeroporto Santos Dumont (uma jóia rara, um aeroporto único no mundo, só quem já pousou lá sabe do que estou falando), fica o MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O acervo permanente é bem bacana e inclui a coleção Gilberto Chateaubriand; de vez em quando rolam umas exposições bem interessantes. Mas o que eu gosto mesmo é de passear nos pilotis (com criança é uma beleza, corre-se pra lá e pra cá) e andar até a pista de caminhada que fica na beira da baía de Guanabara. Delícia total é ver os barcos da Marina da Glória (e admirar esse povo que vive bem), contar os aviões decolando e pousando bem baixinho, ver o céu azul do Rio e esquecer que a vida nem sempre é bela.

Olhar para cima na Cinelândia: quem trabalha no Centro do Rio (como eu e mais centenas de milhares de pessoas) está acostumando a passar pela Cinelândia correndo, desviando de camelôs, pedintes, punguistas e manifestantes em geral – já que a Câmara dos Vereadores é ali, e desde os tempos do Brizola o lugar ficou marcado como ponto de reclamações, protestos e outros tipos de manifestação, algumas com bons propósitos, outras nem tanto. Mas quem anda no corre-corre acaba perdendo o prazer de desfrutar um dos lugares com mais belezas arquitetônicas da cidade. A Praça Floriano (nome oficial do logradouro) é cercada assim: de um lado, o Theatro Municipal (que, por uma dessas maluquices administrativas herdadas do tempo da fusão, na verdade pertence ao governo do Estado); logo em frente, o Museu Nacional de Belas Artes, que tem a mais significativa coleção de arte brasileira do século XIX, com destaque para as monumentais obras de Pedro Américo e Vítor Meireles; logo ao lado fica a Sala Funarte, onde já vi muitos shows bacanas no projeto Seis e Meia (na verdade, não sei se a sala está aberta ou fechada – o museu estava em reformas até pouco tempo atrás); atravessando a rua, está a Biblioteca Nacional, fundada por Dom João VI logo após sua chegada ao Brasil em 1808: trata-se da oitava maior biblioteca do mundo, que tem no acervo simplesmente dois exemplares da Bíblia da Mogúncia, a primeira publicação impressa com data da história; do outro lado da praça, a Câmara Municipal, o Amarelinho, um dos mais tradicionais botequins da cidade; e, lá no final, o cinema Odeon BR, remanescente da época em que ver um filme era sinônimo de pegar o bonde e ir até a Cinelândia (daí o apelido, que hoje em dia é muito mais famoso que o nome próprio). É o único passeio que faço questão de fazer com os amigos que vêm de fora para conhecer o Rio – nem que seja rapidinho, pela janela do carro, todos têm que passar por lá. Porque praia, existem muitas por aí. Mas a Cinelândia só o Rio de Janeiro pode oferecer a você.

Divirtam-se!

-Monix-

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