Tratando dos cabelos

Quarta-feira, Julho 04, 2007

Moldura do rosto, obsessão feminina, símbolo de vaidade, ícone de rebeldia, local de afago, delator ou falsificador de idades. Os cabelos, esses “cilindros de espessura fina”, como definiu Arnaldo Antunes, têm diversificados papéis e finalidades, transitando da estética à política. Importante marca racial, poderoso critério de definição de negritude. Como também conferem feminilidade às mulheres, têm um valor decisivo para as mulheres negras. Pois no Brasil, ainda que a cor da pele possa ser alternadamente elogiada ou repelida, o padrão capilar é bem mais rigoroso: o bonito é liso; o crespo é mais que feio: é ruim (como se cabelo tivesse caráter, como dizia uma amiga).

É claro que essa ditadura tem contra-correntes e hoje já não é tão implacável. Foi preciso radicalizar, num primeiro momento, quando Gil recomendava: “Sarará cura dessa doença/de querer cabelo liso/já tendo cabelo duro/cabelo duro é preciso pra ser você crioulo”. Aqui o cabelo duro era imperativo – o que já despertava certa curiosidade. Logo depois o mesmo Gil cantou pioneiramente o Ilê Ayê, e ali o cabelo era parte de algo bacana, de um mundo negro específico “Temos cabelo duro somos bem legal/somos crioulo doido somos black power”. Ter o cabelo duro já não era uma obrigação, mas era, antes, legal, cool.

De lá pra cá muitas canções citaram o cabelo como afirmação de negritude. Verdadeiro hino negro, o pré-funk ‘Olhos Coloridos’ – do tempo em que Sandra era apenas Sá – foi regravado diversas vezes, e ainda hoje é “baba” em qualquer pista de dança. Agora os cabelos aparecem como objeto de desejo: “Seu cabelo enrolado/todos querem imitar”. A melhor gravação pra mim é do Funk ‘n Lata que, à frase “a verdade é que você tem sangue crioulo”, acrescentou com propriedade: ‘todo brasileiro tem!’.

A Paulicéia não ficou de fora: Max de Castro cantou com Paula Lima “O nêgo do cabelo bom”, que não aceita discriminação e “dita moda em Paris”. O genial Itamar Assumpção avisa de cara que tem “o cabelo duro/mas não o miolo mole”; a afirmação étnica vem logo depois: “Sou afro brasileiro puro/É mulata minha prole”.

É possível inclusive rever conceitos e canções, descobrindo nuances impensadas: o Planet Hemp revisitou “Nega do cabelo duro” de um jeito que a pergunta-chave, “qual é o pente que te penteia?” parece conter antes admiração que desprezo.

Há poucos anos reeditaram também a tal chapinha, antes coisa de preto pobre e agora artifício glamourizado pelas patricinhas todas. Não acho que alisamento seja sinônimo de alienação, isso seria apenas trocar os valores e manter uma imposição externa sobre a cabeça das mulheres negras. Embora pessoalmente não me agrade o visual boilambeu, defendo o direito à escova progressiva – aquela com a qual a funkeira pula e agita e que encolhe na chuva. Desde que seja isso mesmo, uma opção, entre muitas. Porque com já disse uma militante, de maneira brilhante: em se tratando de cabelo, não importa o que você faz, mas porque faz.

Cai como uma luva para essa discussão a canção que conheci recentemente, de India Arie. Com o sugestivo título “I am not my hair”, India fala de tudo que já fez no cabelo, em diferentes idades, do que já foi moda e atitude, pra lembrar que ela não é o cabelo, nem mesmo sua pele, é a alma “who lives within”. E aceita todas as possibilidades, do dreadlock de Marley ao alisado da Oprah.

Eu gosto mesmo é dessa democracia capilar celebrada pela letra do Arnaldo e a melodia de Benjor: ”Cabelo pode ser cortado/Cabelo pode ser comprido/Cabelo pode ser trançado/Cabelo pode ser tingido/Aparado ou escovado/Descolorido, descabelado”. Mas, numa sociedade que valoriza a textura do cabelo a ponto de fazê-la capaz de alterar o tom da sua pele… – quantas vezes me foi negado o direito de ser negra porque meu cabelo não é crespo? E essa negação me era ofertada como concessão e elogio, do qual demorei muito para declinar.

Bom, mas eu dizia que que devemos mesmo rever, questionar e ampliar conceitos e os padrões estéticos, além do valor que damos ao cabelos. Até porque, como já dizia meu avô, se cabelo valesse alguma coisa não nascia onde o sol não bate (não exatamente com essas palavras, mas vocês entenderam o Velho…).

Dedicado à Lia, Dora, Júlia e Natália, meninas negras e branca, que têm um longo caminho a percorrer na aceitação de suas particularidades, que eu tenho a pretensão de tornar mais curto e divertido, com este post inclusive.

Trilha sonora do post

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Helê

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