Outubro 03, 2007


Li no Globo Online: “Crianças ateiam fogo em casa depois de visita da ‘Supernanny’ da TV inglesa

Em resumo, a história é a seguinte: uma inglesa, mãe de cinco filhos entre 3 e 11 anos, participou do programa Supernanny dois anos atrás. Notem bem: dois anos, não dois meses, nem duas semanas, nem dois dias. Então, pra começar a conversa, o que é que a pobre da Supernanny tem a ver com a história? Ela entrou na “notícia” tal qual Pilatos no Credo. Mas isso nem foi o que mais me incomodou nessa verdadeira não-notícia. Publicado na editoria de TV, o texto deve se valer dessa prerrogativa para usar um tom mais “descontraído”. Mas nem isso justifica o uso de expressões como “ajudar a domar suas cinco crianças”, “ruidosa prole”, “suas pestinhas atearam fogo”… e por aí vai. A matéria é uma sucessão de pré-julgamentos e insinuações: a mãe, que não conseguia controlar os próprios filhos, está separada do marido desde o último verão (sendo que estamos em setembro e o episódio ocorreu no hemisfério norte). Ao contrário do que o início da narrativa nos faz supor, havia apenas uma criança em casa, justamente o filho menor, de 3 anos – os outros estavam na escola. A mãe estava ao telefone e a criança teria acidentalmente ateado fogo em uma cortina. O fogo se alastrou e destruiu a casa. Os depoimentos do policial e do vizinho são um primor de preconceito: “acreditamos que a família pediu ajuda à Supernanny para ajudar os pais a controlarem as crianças. Eles claramente não estavam se entendendo quando o fogo aparentemente foi causado por um dos menores, queimando as cortinas”, diz o policial. Vejam bem, a mãe estava com apenas uma criança em casa. A Supernanny foi chamada em 2005. O que tem a ver uma coisa com a outra? O vizinho ainda sentenciou: “não se deixa uma criança de 3 anos sozinha, não importa o quão importante seja a ligação”. Ah, tá, então uma criança de 3 anos (não 3 meses, repito: 3 anos) não pode ser deixada sozinha nem por um minuto? A mãe não pode nem atender um telefone?
Gente, acidentes acontecem. Casas pegam fogo. Se não houvesse uma celebridade remotamente ligada ao caso (e isso forçando muuuito a barra, já que das cinco crianças “domadas” pela especialista, apenas uma estava em casa), isso só seria notícia na Folha Regional de Essex.
Pode ser que essa mãe seja incapaz de criar os filhos. Pode ser que as cinco crianças sejam pestes insuportáveis. Pode ser que o pai não tenha agüentado o tranco e tenha saído de casa por causa disso. Ou não. Mas me assusta constatar que uma pessoa não pode ter cinco filhos sem ser tachada de louca. Uma mãe não pode pedir ajuda a uma profissional qualificada sem assinar o recibo de sua própria incompetência. Uma mulher que se separa do marido ainda é tratada, em pleno século XXI, na Inglaterra, como uma mulher que foi largada à própria sorte. Essas coisas é que me dão medo.

-Monix-

Da série “Máximas saídas do meu Ipod”

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

“Todo homem que relaxa tem mais abertura pra sentir prazer”
Império dos Sentidos, do Premeditando o Breque

Helê

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