Algumas anotações sobre Tropa de Elite

Domingo, Outubro 14, 2007

Daí que o Capitão Nascimento é um homem durão, porém com dilemas de consciência. Por essa eu não esperava.
Sei que o assunto já está mais do que batido. Tanto a imprensa quanto os blogues destrincharam o filme, sua repercussão e suas intenções. Mas como eu preferi esperar para assistir Tropa de Elite como deve ser, ou seja, no escurinho do cinema, com projeção digital e som THX, e, me perdoe a Vera, com uma pipoca quentinha para acompanhar, só agora pude entrar no debate.

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Tecnicamente irrepreensível, o filme tem com principal defeito o mesmo problema que encontrei no livro no qual é baseado: o narrador tenta, o tempo todo, se justificar diante do que acredita ser o leitor/espectador meio-intelectual-meio-de-esquerda. O filme ganharia muito, em termos de ritmo, se a locução em off fosse simplesmente retirada. Contaria-se uma boa história, é só. Acredito que é possível – e até desejável – eleger um ponto de vista para a narrativa. Mas narrar de um determinado ponto de vista é uma coisa; fazer o narrador dar opiniões o tempo todo já é “sociologizar” uma história que poderia, simplesmente, ser bem contada.

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A versão original do roteiro não tinha o personagem do Capitão Nascimento. Um mínimo de familiaridade com os mecanismos da ficção, especialmente a ficção audiovisual, mais especialmente ainda no Brasil das telenovelas e do humor fundado pelos programas de rádio, possibilita reconhecer o poder de um bom bordão. O Capitão Nascimento é, de fato, um personagem carismático, que ganhou vida por obra de um ator extremamente talentoso. Além de tudo, é riquíssimo em ótimos bordões. Nesse sentido acho que não dá para negar que a estrutura do filme em si tem, sim, uma relação íntima com a reação que ele provoca nas platéias e até mesmo em quem não o assistiu.

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Como toda obra de ficção que se preza, Tropa de Elite constrói seus personagens a partir de estereótipos. Isso não é nada demais, é apenas um recurso que torna filmes e livros muito mais interessantes – imaginem que chatice mostrar personagens super realistas, que vivessem vidas como as nossas, absurdamente comuns. É bom ter isso em mente quando pensamos nos estudantes da PUC, nas ONGs e até mesmo nos policiais que vemos na tela. Eles podem ser convincentes retratos da realidade, mas nos convencem justamente porque se encaixam com perfeição no estereótipo que fazemos dessas “categorias” de pessoas. Na vida real, há muito mais cores dentro de cada um do que apenas o preto e o branco mostrados nos filmes.

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Qual é a diferença, me pergunto, entre o Capitão Nascimento e os heróis do cinema americano, como por exemplo meu querido John McClane?
Muitas, é claro, a começar pelo fato de o primeiro ser obviamente um anti-herói. Mas me parece que a questão fundamental aqui é que o Capitão, como personagem, retrata aquilo que o próprio Rodrigo Pimentel, um dos autores do livro, definiu como uma “guerra particular”. Só que essa guerra acontece no quintal das nossas casas, e eu, sinceramente, não consigo achar muita graça quando estou no meio do fogo cruzado. Acho que tem algo de essencialmente errado numa sociedade que cultua uma caveira, ainda que em tom de deboche – ou talvez, pior ainda se em tom de deboche. Mas aí já sou eu, com minha ingenuidade utópica turvando a visão objetiva dos fatos.

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Me chama a atenção a forma como, de uns tempos para cá, as discussões públicas no Brasil têm se acirrado, com os ânimos exaltados de ambos os lados. De toda forma, acho ótimo que os assuntos polêmicos sejam apresentados, debatidos, negociados socialmente. Varrer a sujeira para debaixo do tapete nunca foi solução para nada, e talvez o Brasil precisasse mesmo de um pouco de conflito ideológico, nem que seja por simples necessidade de movimento dialético. Que esse debate riquíssimo tenha sido provocado por um filme nacional, na minha opinião, é a cereja do sundae. 🙂

-Monix-

Uma coisa que me incomoda ainda mais que a reação do público à estratégia truculenta do Capitão Nascimento é ouvir que o filme “não é tão violento assim”. Estamos mais anestesiados do que eu pensava.

9:42 PM

2 Respostas

  1. […] que o Marcos Winter, e a gente vai e enche de azeitona essa empada. Deixem O Mecanismo para lá. Como toda obra do José Padilha, essa também tem graves problemas. Mas as anteriores vinham com o agravante de serem boas obras […]

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  2. […] Tropa de Elite 2 – o comentário entreouvido na saída do cinema resume o filme: “ué, mas então o primeiro filme era uma crítica à polícia?” “É, acho que era…” Capitão Nascimento finalmente encontrou o tom adequado para dizer o que deveria ter dito desde o início. […]

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