Eu não vou

Segunda-feira, Novembro 05, 2007


Não, gente, eu não vou ao show do Police. Como boa balzaquiana (mais balzaca que boa) tenho os caras como parte da trilha sonora da minha adolescência, assim original soundtrack mesmo. Acontece que atualmente eu pertenço a este público-limbo que não estuda nem tem mais de 65 anos – ou seja, paga o dobro do valor real do ingresso, que é o vendido como ‘meia’. Ou sou só eu que pensa assim?
Como eu não acho que a solução seja falsificar carteirinha – que fica entre a criancice e o estelionato – vou ver pela tevê. Curtam 20% a mais por mim, plis.

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Já leu o post da Outra aqui em baixo? Não seja preguiçoso, tá uma delícia.
Helê

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Fora da ordem

Novembro 05, 2007

Outro dia, num papo-de-bar, me perguntaram o seguinte: “você, que gosta de governantes latino-americanos, o que acha do Hugo Chavez?”
A conversa acabou sendo levada para outros rumos, como costuma acontecer em mesas de bar, mas a provocação estava feita. E o pensamento, vocês sabem, só precisa ser cutucado para despertar e começar a viajar.

Antes de me concentar na resposta, quero só fazer um comentário sobre a pergunta: que delícia ser classificada como uma pessoa que “gosta de governantes latino-americanos”, vocês não acham? 😉

Bom, em relação ao Chavez, me assusta a quebra institucional promovida pelo todo-poderoso da Venezuela. Esse terreno é pura areia movediça: começa com uma pequena concessão aqui, outra ali, em nome de uma boa causa, de um ideal válido, e quando a sociedade se dá conta, não tem mais um presidente e sim um mandatário. Daí para a ditadura personalista é um pulinho. Nesse sentido, acho o rumo que Chavez está tomando bastante perigoso para a instável história das democracias latino-americanas – e extremamente constrangedor para a esquerda social-democrata de modo geral.

Porém… (ah, porém!)

Vocês já viram fotos representando a visão da mosca? Elas não enxergam apenas uma imagem completa, e sim um mosaico. Então, lançando um certo “olhar de mosca” sobre a questão, digo que apesar de tudo isso me interessa ouvir uma voz dissonante. É instigante observar (claro que da posição mais confortável: do lado de fora) uma sociedade tentar estabelecer novas formas de organização, “fora da nova ordem mundial”. Já que estamos falando de América Latina, é um tanto assustador constatar que somos, desde sempre e ainda, muito mais dependentes do modelo norte-americano do que poderia ser considerado saudável. Levando esse pensamento para passear, fico de fora tentando compreender como será estar lá dentro, quais as características peculiares da Venezuela que levam a sociedade venezuela a se moldar daquela maneira; por que motivos específicos, que só quem está lá conhece, um Chavez é criado, nutrido, engendrado – porque nesse ponto eu não alimento ilusões: cada país tem o governante que precisa, ou, indo além, que deseja.

Um parênteses (des)necessário: lembro de quando assisti a um show do Caetano Veloso, bem no início dos anos 1990, ou seja, logo após a redemocratização do Brasil. Là pelas tantas, antes de tocar “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, composta por Roberto Carlos em homenagem a ele, Caetano falou um pouco sobre a experiência do exílio. E disse que uma das coisas que mais o angustiava naquele momento era constatar que a ditadura era algo que vinha ‘de dentro das entranhas do ser do Brasil’, ou algo equivalente, em puro caetanês. Mas o pior é que era verdade.

E já que estamos falando disso, mudo de assunto permanecendo no mesmo tema. Nesses dias que passei em Buenos Aires no mês passado, me chamou a atenção a total ausência de pichações/grafitis nos muros. Só existem protestos, por toda a cidade, contra tudo e contra todos. As mais emblemáticas são as da Catedral da cidade, onde se vêem frases defendendo o aborto livre e gratuito e acusações de cumplicidade com o genocídio, em referência ao ex-capelão da polícia argentina, condenado recentemente por compactuar com as práticas de tortura perpetradas pela ditadura daquele país – na minha opinião, o maior absurdo da história recente da Igreja Católica, pior até do que os escândalos envolvendo padres pedófilos. A questão que fica é: como é possível que uma sociedade com esse grau de politização faça escolhas tão esdrúxulas na hora de eleger seus governantes? Está aí a prova de que as tramas sociais não são tão lineares quanto muitos gostam de pensar… e nem tudo pode ser explicado por relações de causa e efeito simplistas.

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Só um último comentário, desta vez sobre o Brasil: a adesão a essa homogeneização política a que me refiro, particularmente nos países mais orbitais à hegemonia estadunidense, é, na minha opinião, o grande problema dos governos de Lula. Ao entrar no Palácio do Planalto, durante a campanha eleitoral, e participar, junto com Fernando Henrique e seu candidato José Serra, Lula deu uma importante demonstração de que não pretendia promover a temida quebra institucional – o que por si, claro, é válido. No entanto, ali ele assumiu uma divisão interna que até hoje não foi resolvida. Foi eleito por uma maioria que aprovou o gesto de conciliação, e não sabe a quem deve fidelidade: a quem o elegeu ou a quem vota nele há 20 anos. Há uma diferença entre votar e eleger, que fique claro. Nesse caso, o eleitorado quer a continuidade; os votantes, no entanto, continuam desejando o que sempre desejaram: ruptura. Ficou a dúvida drummondiana: e agora, José?

-Monix-

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