Sobre Harry Potter

Dezembro 03, 2007

Atenção: este texto contém spoilers – informações importantes sobre o último livro. Caso não queira saber, pare agora ou cale-se para sempre

“Não há nada só bom
Não, ninguém é só mal
Se o início e o final de nós todos
É um só”

Lulu Santos

Eu poderia falar da fantástica mágica realizada pela J.K. Rowling fazendo legiões de crianças e adultos no mundo inteiro acompanharem uma história que se estendeu por 10 anos e sete livros. Ou de sua assombrosa capacidade de colocar o leitor dentro da cena, de modo que todos os filmes subseqüentes, bons ou ruins, ficaram sempre aquém das imagens que ela foi capaz de provocar em nossas mentes. Há ainda a relação especial construída entre leitores e personagens desse folhetim-entre-séculos, sendo que muitos leitores acompanharam e amadureceram junto com os personagens, num paralelo ficção/realidade muito interessante. Eu poderia falar disso tudo e muito mais por muito tempo, mas apenas pra iniciar a conversa com quem quiser papear sobre o assunto, seguem três pontos de destaque neste último livro da série:

– Família é (quase) tudo: a origem familiar dos personagens parece, em certos momentos da saga, determinar o caráter e/ou o destino dos personagens. Mas, no final das contas, nem tanto. Pois Harry e Você-Sabe-Quem têm origem semelhante: ambos são órfãos criados sem amor, e transformam-se na antítese um do outro. A família perfeita, aquela da qual queremos fazer parte – ou pelo menos ser amigos -, os Weasley, tem também um desertor, Percy (ainda que ele se arrependa e reúna-se aos seus perto do fim). A relação entre irmãos, aliás – de amor, inveja, ciúme, disputa – justifica muita coisa na história. Basta lembrar de Petúnia e Lílian, ou Dumbledore e os irmãos. A família tem, de fato, um papel fundamental – mas não é uma sentença. O amor é o que realmente faz a diferença, e os amigos, a família escolhida, são igualmente valiosos. O que nos leva ao segundo ponto:

– Nada se consegue sozinho: Harry é um herói bastante humano no que tem de indeciso, inseguro, na luta contra a condição de herói que não escolheu. Herói que perde tanto ou mais do que ganha; se consegue triunfar no final paga, para isso, um preço alto. Ele também é corajoso como um verdadeiro herói, disposto a dar a vida para salvar a de outros. No entanto, não chegaria aonde chegou sem muitas e variadas ajudas, desde o Sábio dos sábios, o velho Dumb, até elfos domésticos e gnomos, passando por figuras de inteligência e bravura medianas como Neville e mesmo Rony. Desde o núcleo de amizade formado com Hermione e Rony até a Armada Dumbledore e a Ordem da Fênix, passando por colaborações avulsas e inesperadas (Aberforth, por exemplo) Harry Potter conta com o auxilio luxuoso de muitos para salvar a todos.

– De perto ninguém é tão mau. Esse pra mim é a grande bandeira defendida pela J.K. Rowling, a máxima potteriana por excelência, especialmente no último livro. Os podres de Dumbledore – compreensíveis, mas podres, anyway – os vacilos de Harry diante das maledicências sobre o diretor; a capacidade de transformação de alguém como Monstro, tomado de rancor; a capitulação de Lovegood em função da filha; o vacilo de Pettigrew que lhe custa a vida; a devoção dos Malfoy pelo filho e a traição de Narcisa em função desse amor; todas situações que mostram as pessoas com muitos tons e nuances, sem a monotonia bicolor limitada do bem e do mal. Nossa condição humana estabelece-se exatamente pela nossa capacidade de sermos muitos e plenos nessa multiplicidade – e, portanto, somos todos heróis, bruxos, sábios, trouxas, mães, alunos, elfos, fantasmas, gigantes, comensais. Se de perto ninguém é normal, como sacou Caetano, de perto ninguém é tão mau, nem tão bom. O personagem que melhor representa isso, e talvez por isso seja o mais fascinante pra mim é Severo Snape, ambíguo do início ao fim, até a raiz dos seus cabelos sebosos. Aquele viveu e morreu na fronteira entre o bem e o mal, e só pôde ser salvo pelo amor – platônico, impossível, não-correspondido, mas amor ainda assim, capaz de salvá-lo da perdição completa. Amor que era incompreensível para Voldemort, e que por isso deixou-lhe um flanco aberto.

O que me leva à síntese de tudo isso, cantada por outros meninos tempos atrás: “All you need is love – love is all you need“.

Ah, esses ingleses…

Helê

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