Eu prefiro um lugar onde não existam racistas. Se o racismo sempre vai existir, eu não sei. O que sabemos é que ele existe. E enquanto existir, eu prefiro um lugar onde os racistas tenham vergonha de se assumir enquanto tais.

Bem colocado, Idelber. Eu também prefiro. Mas, como o mundo não é preto-e-branco, muito pelo contrário, somos todos em tons de cinza, me parece que essa vergonha do racismo é, ao mesmo tempo, o que nos salva do apartheid e o que nos torna ainda mais reprováveis. Em meus 37 anos de vida, tendo trabalhado e convivido com centenas de pessoas diferentes, conheci apenas UMA que se assumia como racista (embora tentasse justificar pelo fato de ser nordestina (?) e ter sido “criada dessa forma”). No entanto, até em minha família cansei de ver situações em que negros ou mestiços foram tratados com condescendência ou de maneira humilhante. Quem bate, esquece, já diz o ditado. Para evitar apanhar – e hoje em dia, nós, da classe média iluminada, temos o orgulho discutível de poder afirmar que esse “apanhar” é em geral metafórico -, tantos e tantos mestiços (diria que quase todos os que eu conheço) se comportam como e se intitulam brancos. Por essas e outras, continuo seguindo o argumento da minha sócia Helê, que diz: quem é preto, no Brasil, sabe.
Sem querer ser intelectualmente leviana, e baseada apenas na minha parca experiência de turista, em Cuba vi uma realidade bem diferente da brasileira – e me parece que historicamente temos características semelhantes tanto na estrutura do escravagismo quanto na proporção entre as populações negra/branca/mestiça. Lá tive a sensação de que a cultura negra é bem mais valorizada e há, aparentemente, uma mobilidade social – na medida em que se possa usar esse termo num país socialista – menos ditada pelo tom da pele. Corrijam-se se estiver errada: como disse, esta é apenas uma impressão de turista. De qualquer forma, cito essa impressão apenas para questionar as alegadas razões históricas para a especificidade brasileira. Claro que as relações de causa e conseqüência não são tão diretas assim, mas de qualquer forma essa distinção me fez pensar, agora, sobre qual o papel desempenhado pela estrutura de classes brasileira no processo de discriminação racial.
Para mim, este é o “xis” da questão quando se debatem cotas raciais. Há o predomínio de uma linha argumentativa, pelo menos no meu “círculo social” (pô, me senti uma socialite escrevendo isso, hahahaha), que defende as cotas sociais em detrimento das raciais. Eu não vejo o porquê de uma eliminar a outra, acho que ambas podem ter sua razão de existir. Mas o fato é que no Brasil o racismo e a gritante desigualdade social (leia-se econômica) se interrelacionam de forma muito particular, e por isso é difícil transpor o modelo americano sem adaptá-lo à nossa realidade.
Em relação ao pouco que conheço sobre o problema racial nos Estados Unidos, uma das coisas que mais me impressinou foi justamente o sistema de ‘one drop rule’. Extrapolando um pouco, fico aqui viajando que a ‘democracia’/hipocrisia racial brasileira se baseia no conceito oposto: para nós, uma gota de sangue branco deveria ser o passaporte para uma suposta “purificação” – o que, na prática, só complica as classificações. Um dos argumentos mais simplificadores dos que são contrários às cotas é o de que é impossível determinar quem é negro no Brasil, e que “qualquer um” pode pedir acesso à Universidade alegando ser negro. (Bem, eu não posso… nem você, né, Idelber? Pois é.) Deixando de lado o fato de que esse argumento totally miss the point, ele só reforça, a partir de uma questão meramente operacional, a dificuldade de se discutir racismo num país predominantemente mestiço como o Brasil.
Enfim, continuo achando, basicamente, o seguinte: 1) o grande mérito da implementação do sistema de cotas no Brasil – que, por definição, tem que ser temporário, e essa, na minha opinião, é a maior falha do sistema atual – é fazer com que os intelectuais, a academia, os políticos e a classe média finalmente tenham se decidido a discutir o problema do racismo, que, historicamente, vinha sendo empurrado para debaixo do tapete; e 2) só a auto-declaração salva: eu não sei quem é negro, mas tenho certeza de que quem é negro, sabe.

-Monix-

Texto publicado originalmente como comentário a esse post do Idelber.

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