Contra o “carro das mulheres”

Quinta-feira, Março 06, 2008

Para Bia

Desde 2006 há aqui no Rio uma lei estadual que dedica vagões do metrô e dos trens para as mulheres, no horário de pico (sem trocadilho). Embora possa soar positiva num primeiro momento, a medida é, no mínimo, conservadora, porque não combate a prática de homens que molestam mulheres em transportes públicos. Apenas separa e segrega, e não se fala mais nisso.

Interessante esta maneira de “proteção” das mulheres: mesmo representando 49% do total de passageiros, segundo a própria empresa, as mulheres devem ser confinadas em dois vagões para que sejam resguardadas dos tarados – que permanecem com 80% dos carros à disposição. Guardam as mulheres como se fossem elas as ameaças, e não as ameaçadas; as vítimas são punidas pelo mau comportamento dos agressores.

O mais grave, na minha opinião, é que a lei e a forma de sua execução não rompem com o que lhe deu origem, que é o comportamento abusivo, intimidador e agressivo de certos homens. A voz asséptica do Metrô informa que “o carro das mulheres é uma questão de cidadania”, do mesmo modo e tom que lembra da importância de dar lugar aos idosos, mas não se trata da mesma coisa! Cede-se lugar aos mais velhos por gentileza, mas reservam-se vagões exclusivos para mulheres porque elas sofrem abusos, porque alguns homens sentem-se no direito de assediar uma mulher independente da aceitação dela ou não. E porque às mulheres não é dado apoio ou incentivo para denunciar esses atos. Ao contrário: muitas de nós, eu entre essas, somos educadas para evitar confusão, simplesmente “sair de perto”, “não criar caso”.

O Alex Castro desmontou muito bem esta inversão na qual quem denuncia a falta confunde-se com o faltoso. Então eu estou bem no meu canto, o cara vem, passa a mão em mim, eu chamo a polícia e sou eu quem crio caso? Por isso me irrita sempre e muito esse slogan “carro das mulheres: uma questão de cidadania”. Cidadania tem que passar por educação e observância de direitos. Temos que educar nossos filhos e filhas para o absurdo que é invadir o espaço de outra pessoa, e incentivá-los denunciar quando os limites forem ultrapassados. Mas quero também que o Metrô faça cartazes, dê panfletos e diga nos alto-falantes a seguinte orientação: “Se você, mulher, se sentir incomodada ou ameaçada pelo comportamento de outro passageiro, procure a segurança do Metrô, estamos aqui para servi-la”.

Pois eu não entro no carro das mulheres. Porque o meu direito de ir e vir tem que ser respeitado em qualquer lugar que eu ocupe. Porque me recuso a ser confinada. Porque o que é preciso é ter respaldo e apoio para poder apontar o dedo na cara do filho da puta que alguma maneira abusar de mim, porque nada dá a ele esse direito. E esse tipo de abuso só vai parar quando não houver mais silêncio, mas grita e justiça. E cada mulher que denuncia um abuso, de qualquer grau ou espécie, está minando essa cultura sórdida que acha que “isso é normal” e que “é melhor não criar caso, que pega mal”. Cada mulher que fala está recusando o lugar de vítima passiva para ocupar o de sujeito de sua própria história. E cada uma que tem essa coragem fortalece a todas nós.

Helê
PS: E a idéia, infelizmente, já se espalhou: o Le Monde noticou um ônibus na cidade do México também exclusivo para mulheres.

Antipatia não é quase desamor

Março 06, 2008

Não é que eu costume consumir açúcar refinado (item que poderia ser dispensado da minha lista de compras, não fosse a existência da babá-que-dorme), mas sinto uma certa nostalgia de ter uma vizinha a quem recorrer quando falta um ingrediente vital para aquela receita. Ou, no mínimo, alguém para dizer bom dia, perguntar como vão as crianças, comentar sobre o vazamento na garagem ou a demissão do porteiro rabugento.
Uma das minhas frustrações da vida adulta (ou seria da vida de dona de casa?) é não conseguir estabelecer contato com meus vizinhos. Eu não sou uma pessoa lá muito sociável, isso não sou mesmo. Tenho uma enorme dificuldade de cumprimentar, tentar estabelecer contato. Daí que a cada vez que me mudo é a mesma coisa: os desconhecidos com quem compartilho as áreas comuns do prédio ao mesmo tempo me intimidam, me assustam e me atraem. Eu queria muito ser aquele tipo de pessoa que fica amiga de vizinhos de andar (e o mesmo se aplica aos pais de coleguinhas de escola do filho), mas, definitivamente, eu não sou.
Às vezes a antipatia é um dom involuntário.

-Monix-

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