Chutando cachorro morto

Alguém aqui assistiu a matéria no Fantástico falando sobre o Rock in Rio em Lisboa (?!?!)? Eu vi graças a Marido Meu, que me alertou, sabendo o quanto eu gosto da Amy Winehouse. Mas que matéria… nem sei bem qualificar. Equivocada, certamente, mas talvez cruel também seja um adjetivo adequado.

Vejamos: o fato incontestável é que a inglesa fez um show péssimo porque estava rouqíssima, portanto sem seu mais potente atrativo: a voz. Quase caiu no palco e deu uns goles em cena, parece que atrasou o início da apresentação. Lamentável, frustante para os fãs, preocupante pra quem, como eu, vê essa mistura de Janis Joplin e Billy Holliday seguir um caminho sem volta, e curto, provavelmente. Embora eu torça pra que ela se encontre ou vire um Doidão Highalnder feito o Keith Richards, sei que casos assim são raros, especialmente entre as mulheres – já repararam?.

Pois bem: a Sônia Bridi fez uma matéria que traçou um paralelo entre a Amy e a Ivete Sangalo. Começa mostrando a preparação de Ivete para entrar em cena, rezando com os músicos, depois indo para o palco de mãos dadas com o namorado, e o costumeiro delírio da platéia. Mostra Lenny Kravitz supostamente assistindo ao show do backstage; depois entrevista Ivete, que diz que tb assistiu o show dele e aprendeu muito (veremos no próximo carnaval de Salvador). Desse suposto intercâmbio a repórter faz o gancho pra falar da Amy, dizendo que “alguns artistas dispensaram esse clima de festival”, como ela, que chegou de avião fretado meia hora antes do show. E só então fala do fracasso do show, destacando detalhes fundamentais como o machucado que a cantora tinha no pescoço, ou o fato dela ter o nome do marido nos cabelos (que a repórter chamou de namorado).

A comparação foi evidente, e absolutamente desnecessária. Porque comparar as duas, se são artistas absolutamente diferentes? Pra dizer o mínimo, Ivete é uma artista de multidões e maracanãs – o que não se espera da Amy nem nos seus melhores ou mais sóbrios dias. Porque estavam no mesmo evento? Bom, havia outros artistas. Porque são duas mulheres? Ou porque foi uma mulher que fez a matéria (e aqui sou forçada a concordar que o quanto nós mulheres somos inclementes com nós mesmas) ?

Sim, eu sou fã da Amy, e acho a Sangalo um caso monumental de desperdício de talento. Mas meu desgrado com a matéria vai além disso. Incomoda primeiro porque, ao comparar, vende um padrão de conduta correto: olha aquela, que bacana, rezando com a banda, de mão dada como amor, tudo perfeitim e limpim e corretim. A vida photoshopada, como bem definiu o Marcelo Tas em brilhante entrevista na Trip deste mês. O trash way of life da Amy não me seduz, só me preocupa. Mas essa imposição de um padrão global de qualidade e excelência me dá engulhos. Em segundo lugar, a gratuidade de estabelcer um paralelo em que um dos lados aparerce, segundo os padrões de quem compara, irremediavelmente inferior. Impiedoso e desnecessário, porque pelo que vemos, Amy se destrói sozinha, sem ajuda de ninguém.

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