Falando sobre aborto

Na última quarta-feira a Comissão de Cidadania e Justiça da Câmara dos deputados rejeitou projeto de lei que descriminalizaria o aborto. Com direito a encenações toscas e melodramáticas de deputados histéricos – pelo pouquíssimo que vi na tv -, o parlamento manteve o Brasil ao lado de países como o Haiti e o Afeganistão no tocante ao direito da mulher sobre seu corpo. 

Recentemente esbarrei em duas peças imperdíveis sobre o tema: a primeira delas é uma extensa e cuidadosa reportagem da revista Cláudia. Sim, aquela pra qual eu confesso que torço o nariz e tenho como paradigma da “revista feminina”, com aspas pejorativas. A edição de junho traz a matéria As leis do aborto no Brasil, impecável trabalho jornalístico, que inclui muitos dados, opiniões diversas e os panoramas nacional e internacional. Diz com muita propriedade:

Mesmo que você seja contra o aborto e que tenha certeza de que jamais irá praticá-lo deve entrar nessa discussão, já que a proibição não impede que a cada ano, conforme estimativas, 1 milhão de abortos sejam realizados no Brasil, sendo que 220 mil deles levam a infecções graves e perfurações no útero, entre outras complicações.

Concordar com a descriminalização não é endossar a prática como método de planejamento familiar. Trata-se de respeitar o direito de quem pensa diferente, numa sociedade diversa e plural como a nossa. 

O canditado democrata à presidência dos EUA também manifesta-se sobre pluralidade, respeito e aborto no vídeo (legendado) Barack Obama fala sobre religião. Poucas vezes na vida vi alguém que professa uma religião fazer colocações tão sensatas. Ainda que consideremos que trata-se do discurso de um político em campanha, e que sua posição não seja efetivamente pró-escolha, expressa uma rara lucidez sobre os limites entre religião e Estado:

A democracia exige que aqueles motivados pela religião traduzam suas preocupações em valores universais ao invés de específicos de uma religião. (…) Eu posso ser contrário ao aborto por razões religiosas, para dar um exemplo, mas se eu pretendo aprovar uma lei proibindo a prática, eu não posso simplesmente recorrer aos ensinamentos da minha igreja, ou invocar a vontade divina; eu tenho que explicar porque o aborto viola algum princípio que é acessível a pessoas de todas as fés, incluindo aqueles sem fé alguma. Agora, isso vai ser difícil para alguns que acreditam na inerrância da bíblia, como muitos evangélicos acreditam, mas em uma sociedade pluralista nós não temos escolha.

Helê

6 Respostas

  1. Vc disse bem qdo levantou a questao de Obama estar em campanha, mas eu acho que ele realmente pensa assim… eu sou catolica praticante e penso exatamente como ele… nao me alinho com a minha religiao qdo o assunto é sexo e gravidez…Imagina sem alguém em sa(n) consciencia por ser contra o uso de camisinha ou pode ser contra a legalizaçao do aborto???
    Aqui no Canada a igreja Catolica fez um escandalo mês passado pq um médico que lutou pela legalizaçao do aborto aqui foi condecorado com a Ordem do Canada, que equivale à nossa Ordem do Cruzeiro do Sul… Eles convocaram o povo pra ir pra frente da casa da Governadora Geral fazer piquete… apareceram uns 2 ou 3 gatos pingados e ninguém nem se deu conta deles… o que so prova que os catolicos aqui, em sua maioria (e graças à Deus!), pensam como eu… Nos temos agora aqui um Primeiro Ministro conservador e qdo o mesmo subiu ao poder, os cristaos fanaticos acharam que ele ia revogar a lei e fazer o aborto ilegal outra vez… ele nem pensou nisso, pq sabia que perderia a proxima eleiçao NA CERTA. Nao quis nem referendum pra ver a opinao publica, pq sabia que seria dinheiro jogado no lixo tb.
    Esta decisao da Camara dos Deputados no Brasil me entristece MUITO… pq no Brasil todo mundo faz aborto, a diferença é que a classe média e alta faz no consultorio de seus médicos com toda segurança enquanto o resto morre de infecçao depois de fazer aborto com parteiras, curiosas e afins… Mas como pobre nao conta, quem se importa?

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  2. Vc tá certa, darling! É que não lido bem com generalizações, além de estar meio “azedo” no dia…e um pedido de desculpas duplo pelo “chiita”, um para vc e outro para a Daniele BH.

    Passou, Sérgio. Tá vendo como vc está fora da média? Ter a gentileza de se desculpar não é coisa que se ache facilmente, meu amigo. Beijoca!

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  3. Isso serve para, mais uma vez, vermos que quem manda no Brasil são os “bispos” (seja lá de qual facção forem) e não o povo(?). Fico arrepiado toda vez que lembro do relato de pessoa conhecida em que o instrumento “cirúrgico” foi uma agulha de tricô e muita bebida como “anestesia”. Só não concordo com a colocação “feminista chiita” da Daniele BH.

    Será mesmo que ela está sendo xiita, Sérgio? Desconfio que não, querido. Infelizmente, vc é não representa a média, meu amigo, vc está alguns degraus acima. OU seria mera coincidência que em pleno século 21 não tenha sido desenvolvido nenhum anticoncepcional masculino?!
    Beijo, adoro te ver por aqui.
    Helê

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  4. Pois é, Helê, querem impor uma ética particular (a religiosa) sobre toda a sociedade. Fora aquela história de que, cá pra nós, se homem engravidasse o aborto no Brasil já estaria legalizado há muito tempo…

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  5. ótimas colocações Helê.
    Eu tb passo longe de tal revista, mas tenho q tirar o chapéu pra esse trecho de reportagem q vc colou aqui.
    O discurso de Obama no tocante a Bíblia é bem desalienado, eu tb acho q nos dias em q vivemos os escritos do Livro não podem ser palavra final de uma discursão tão importante.
    (tô gamada no google reader…rs)
    beijos

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  6. Essa discussão é cada vez mais necessária e urgente. Por acaso, estava hoje mesmo, em conversas por e-mail, falando do assunto. A Fal (http://dropsdafal.blogbrasil.com) fez um comentário no blog que gerou um comentário infeliz por parte de uma leitora, o que por sua vez gerou algumas discussões e posicionamentos nesses e-mails que eu acabei de mencionar. A melhor posição é a da própria Fal, que levanta veementemente uma questão muito séria (ai, será que ela fica braba se eu colar aqui uma coisa que ela disse?). Em resumo ela diz que a situação como está é elitista. Porque a criminalização do aborto não atinge as mulheres de classe média e alta. Essas, se e quando precisam, têm acesso aos melhores médicos, clínicas de alto padrão, instrumentos esterilizados. Legalizar o aborto significa salvar a vida de uma multidão de mulheres que vão fazê-lo de qualquer jeito, proibido ou não, só que com ervas duvidosas, cabos de talher, açougueiros da esquina. Não se trata de avalizar e recomendar uma prática que existe e vai continuar existindo independente da lei, mesmo porque quem é contra não fica obrigado a fazer, mas de oferecer oportunidade de vida e saúde pra uma quantidade gigantesca de mulheres hoje totalmente desassistidas.
    e se aparecer alguém pra faar dos direitos do embrião eu tenho opinião pra isso também.

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