Fal e os livros

Esse é mais um da série “papos que viram posts”. O ‘papo’ foi digital, um troca de e-mails entre amigos. Eu disse ter uma certa reverência com relação aos livros da qual eu gostaria de me livrar, pelo menos em parte. Aí a Vera pediu que a sempre sábia Fal desse seu depoimento/testemunho, e ela contou essa história tão linda que eu não pude guardá-la na minha caixa de entrada, apenas:

Vera, a minha experiência sobre livro é assim: quando eu tava na sétima séria, a gente teve que ler um texto sobre a África do Sul, em silêncio, durante a aula, pra discutir também durante a aula. Enquanto a gente lia, todo mundo quieto como um ratinho, a professora andava entre as carteiras. Quando a gente acabou de ler, em vez de falar da África do Sul, a mulher, chamava Mara a professora, fez um discurso sobre ‘trabalhar o texto’. O que ela disse, e que eu nunca me esqueci, foi o seguinte: quando você lê um texto, gostando ou não, você não passa ileso por ele. E nem ele por você. Ler é a coisa mais importante que a gente faz, ler é fazer história e em mais de um sentido, porque só quando a gente inventou a escrita e a registrar o que a gente fazia é que a gente passou a fazer história. Antes era a pré-história. Um texto escrito na sua mão, seja ele qual for, é parte da sua história. Da história de todo mundo. E que quando a gente ‘trabalha um texto’ (pessoalmente eu abomino esse verbo quando usado com esse sentido, Vera, você sabe, eu implico demais com as palavras, trabalhar, transar um sentimento, antenado, balada, uhu, a nível de, rolar uma emoção, paradigma – eu sou uma solteirona chata e velha) a gente presta uma homenagem a ele, à gente mesmo, aos que virão: escrever suas próprias impressões num texto impresso é deixar um pedacinho de história. É também, pensar melhor, expor a sua trilha de raciocínio, deixar por escrito a sua resolução do problema, seus sentimentos durante a leitura. é também fazer um micro diário da vida cotidiana do seu tempo, da sua época, da sua classe social, da sua vidinha. e é torná-lo um pouco seu. de alguma forma você é co-autor.

Eu fiquei totalmente encantada com essa perspectiva, lamentando não tê-la aprendido antes.

E vocês, têm uma relação assim “carnal” com os livros ou mais “platônica”?

Helê

PS: Falando nisso, no próximo dia 2 de setembro a Fal vai lançar livro novo em Sampa. Mais perto eu falo de novo, se não vocês esquecem, que eu sei.

11 Respostas

  1. Sou igual à Ju Sampaio : amo tanto os livros, mas com tanto cuidado, que tenho – e alimento – a ilusão de que o corpo do livro possa ser tão imortal, se bem tratado, quanto a alma dele. E absolutamente ODEIO ver os amassados, sublinhados, migalhas, pestanas, pentelhos ou melecas do leitor anterior naquele que agora é MEU livro, hehehe… não tenho nada contra livros de sebo, acho até charmosa a ortografia antiga, a marca da composição ou linotipia e os papeizinhos esquecidos marcando as páginas. Mas prefiro quando eles só têm, à caneta ou lápis, o nome do dono e/ou dedicatória… e nada mais.

    :o)

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  2. aprender a ler me salvou a vida. eu era franzina e doentia, asmática, tinha 4 aninhos e via o irmâo maiorzinho se debatendo com o aprendizado da leitura. cheguei perto, as estorinhas eram tantas, que mundo mais divertido, cheguei mais perto ainda, riscos, palavras, imagens, vozes…até o dia em que surpreendi a todos lendo uma luluzinha sózinha, respirava, sarei. asma nunca mais. leitura para sempre, continuadamente.

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  3. queria muito ser como a ângela, desapegada… não consigo. tenho um amor possessivo, cheio de cuidados, me apaixono por capas, lombadas e papéis. sou totalmente seduzida por um belo projeto gráfico. houve tempo que lia tudo que em que esbarrasse, devorava bibliotecas e prateleiras de conhecidos. nunca pensei em ser fraseadora, mas sonhava em ter uma livraria, só para poder ler o que quisesse. hoje leio muito muito menos do que gostaria, mas continuo apaixonada por livros e leituras.

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  4. eu já até comi páginas de um livro, se querem um depoimento punk :)
    compro e leio complusivamente. não saio de casa sem pelo menos um – por isso, estou seeeeempre com duas bolsas, como observadora Monix já constatou. Marco as páginas nas quais li frases memoráveis, mas não tenho tesão na posse. Dou e empresto os livros sem cobrar depois, e muitas vezes não os tenho de volta e tô nem aí. Mas devolvo o que me emprestam.
    Já tentei organizar estantes por assunto, mas no máximo chego a “grandes temas” ou por autor. gosto da bagunça de esbarrar no que não estava esperando.
    Ah, sim, amo bibliotecas nas quais você entre para pegar o livro. Odeio aquelas nas quais a bibliotecária vai lá pegar o tal e elimina a possibilidade do esbarrão naquilo que pode ser mais legal do que a busca original. Na época da fichinha os esbarrões aconteciam na gaveta, mas no micro não. gosto de feiras como a do lgo do machado e carioca. Odeio bienais e flips. amo sebos. odeio a saraiva, sicilianos e tenho preconceito com as chinfrosas. gosto da Folha seca do meu amigo Digão, no centro, perto do ccbb. paro nas banquinhas que vendem livros velhos. adoro quando cai uma nota, um papelzinho, quando os livros têm rabiscos que não fiz.
    não me sinto na obrigação de ler tudo. nunca consegui acabar o vermelho e negro, por exemplo, achei um saco. (mesmo sendo flamenguista, hahahaha )mas adoro vários clássicos. tenho um certo pavor de poesia. e de literatura muito muderna. ah, sim. tb escolho pelas capas, claro. já me enganei muitas vezes, mas assim como filme ruim, eu largo pela metade sem dó.

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  5. Alguns livros com certeza são parte da minha história.

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  6. Amém, Fal! Que texto mais lindo!
    Adorei o comentário da Meg também.
    Já eu amo os meus livros como virgens castas: são tratados com toda a delicadeza, não forço a abertura, não deixo marcas, e detesto se encontro neles sinais de outro leitor mais descuidado.

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  7. Pra falar de livro, só posso recorrer ao Manoel de Barros, meu guru :
    “Hoje completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze. Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro. Que eu não queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador. Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa? Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu: Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não botou enxada. ”
    (“Fraseador”, Manoel de Barros, Memórias Inventadas, A Infância, Ed. Planeta)

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  8. Hahahaha! Eu ia escrever uma coisa, mas essa da Meg foi demais! (Livros com forma fálica é genial.)

    Bom, o que eu ia dizer é que eu faço uma bagunça danada com meus livros, dobro bem muito, deixo eles confortáveis para segurar, fico assim bem íntima deles mesmo. Que nem a Fal judia dos gatos, eu judio dos livros. ;-)

    Bjs, Monix

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  9. Bem, eu tenho uma relação visceral, quase doentia com livros. Preciso de ler, um vício mesmo. Mas também gosto do objeto-livro. Gosto de pegar, alisar as folhas, sentir a textura da capa, cheirar a tinta, experimentar se as bordas do papel cortam meus dedos, ouvir o barulhinho das páginas sendo folheadas rapidamente, etc. Ainda bem que não são comestíveis. Ainda bem que não têm uma forma fálica.

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  10. Ah, helê, eu creio no amor carnal, violento, que deixa mancha roxa, que quebra os móveis. com os livros. de resto também, mas daí no sentido figurado ou como vaga lembrança, sou uma viúva honesta, séria, recolhida de mundo, como vc bem sabe.

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  11. tudo que a fal diz a respeito de livros é bom guardar mesmo. espetacular!

    beijos

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