Supercarioca

O Supercarioca chegou
Com seus emblemas culturais
Com samba praia bola e tantas coisas mais
O Supercarioca chegou
Esquecendo a vida entre copos de cerveja
Quando se chutam latas sempre se faz
Mais que um gol!
Picassos Falsos

Quem lê este blog sabe do tanto que eu me ufano do Rio de Janeiro. A cidade é linda, isso não se discute. E tem o charme incomparável de ser habitada por cariocas, de nascença ou por merecimento, pois é claro que ser carioca não é para qualquer um – sendo que, no fim das contas, é para qualquer um.

Só que nos últimos tempos a informalidade e a descontração carioquíssimas por natureza estão se transmutando em seu oposto energético, que se traduz, como diz um amigo, em bundalelê puro e simples. Me sinto vivendo num território sem lei. O jeito meio irreverente de quem vive aqui virou desprezo pelas mínimas regras de civilidade. As pessoas não atravessam a rua (faixa de pedestres? O que é isso?), elas se jogam no meio dos carros, e salve-se quem puder. A seta é um item que só serve para fazer os carros serem reprovados na vistoria do Detran – isto é, quando o motorista em questão se dá ao trabalho de levar o carro para fazer a vistoria, o que nem sempre acontece. As calçadas são terra de ninguém: o camelô monta sua barraquinha, o lojista bota seu tapume e faz a obra (por tempo indeterminado), sem se dar conta de que está impedindo a passagem, os motoristas largam os carros, muitas vezes bloqueando as rampas dos deficientes físicos. Todo mundo buzina indiscriminadamente, de dia ou à noite, na frente de maternidades, hospitais. Os pais de alunos fazem fila dupla ou tripla para buscar seus pimpolhos na escola e dão aula de des-cidadania. É tanto caos que às vezes eu me pergunto como é que ainda não entramos em colapso. Ou vai ver o colapso já aconteceu e a gente simplesmente não percebeu, dada a enorme capacidade de adaptação do ser humano.

A gente ama apesar dos defeitos e não por causa das qualidades. Não deixaria de amar um homem por ele ser difícil, assim como não amo menos minha cidade por ela ser caótica.
Mas às vezes confesso que cansa um pouco.

Chamem o Supercarioca, por favor.

-Monix-

(publicado originalmente em 12 de dezembro de 2007)

5 Respostas

  1. Monica,
    Incrível ler isso escrito por você aqui. Estava preparando um post sobre Rio de Janeiro bastante parecido para o Pout…. outro dia mesmo, depois de voltar de uma viagem de São Paulo, me peguei em um diálogo maluco onde comparava uma cidade a outra. E acredite se quiser: Sampa ganhava. O Rio de Janeiro é lindo, tem paisagens naturais, tem sol, tem mar, tem homens morenos e sarados, mas…. como viver em uma cidade em que para ser bem tratado você tem que pagar (muito) caro? Que as caixas de supermercado jogam suas compras e agem como se estivessem fazendo um favor? Que moleques no trânsito revezam-se entre te apontar um caco de vidro ou uma garrafa de desinfetante fedorento que só serve para melecar ainda mais o vidro do carro? Que o jeitinho carioca, contraventor, de entrar na contramão no trânsito, na sua vida, nos negócios, no amor, prevalece acima de tudo? Tá dificil, Moniquinha, tá muito dificil. E olha que para eu considerar morar em São Paulo….. ou tou maluco ou tou muito desesperado. Acho que neste instante estou um pouco dos dois. Beijão.

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  2. Olha, foi essa mesma impressão que tive quando visitei o Rio pela primeira vez ano passado (abril). Moro em Curitiba e achei muito inusitado o desrespeito com as vias públicas. Achei muito engraçado uns lavadores de carros que montaram “banquinha” na calçada, não dava para passar. Também os camelôs nas passarelas. Aqui em Curitiba é impensável.
    Agora, filas duplas, falta de educação em supermercado, desrespeito em hospital é outra história, sendo bem comum!!! Infelizmente.
    Beijos,
    =^.^=

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  3. Apoiadíssimo! O jeito carioca de ser está aos poucos se tornando um estilo de vida “Made in China”, falsificado, pirateado, feito pros outros verem.

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  4. e a gente ainda acha que o carioca nasceu para ser o superbacana ;/

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  5. uma amiga da minha mãe q é meio zen e já morou até em mauá. aquelas coisas. bem. ela teve em casa ontem e estava falando sobre isso. sobre o caos das relaçoes humanas. e ilustrando com uma dessas historias de fura fila/bate boca em supermercado. e ela tava falando comigo pq ela acha q os homens estao liderando essa falta total de cordialidade. como se fosse uma explosao, depois de seculos de cavalheirismo. mais ou menos isso. a explicação dela é enértica e blá. mas só pra dizer q nao é só no rio q a gente sente isso.

    ah, mary, adorei essa teoria/elocubração. tem a ver. vou adotar. mas olha, vou te falar, eu conheço sp, conheço outras cidades do brasil, eu sei que as pessoas estão estressadas e mal educadas em todo lugar, mas é que aqui a desordem urbana tomou conta da cidade. é o pequeno caos, aquele do microcosmo de cada um, que mais me incomoda. o carioca abriu mão das regras, completamente. desistimos de ser civilizados, foi isso. beijocas, monix

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