Cleptopost – sobre cinema brasileiro

Ana Paula (sobre o cinema brasileiro):

Eu não entendo nada disso, então vcs relevem e me iluminem se eu estiver dizendo asneiras muito grandes. Sei das dificuldades de distribuição, de captação de recursos, de concorrência predadora com os filmes estrangeiros, tudo isso. Mas acho que tem alguma coisa aí que tá faltando.

Os filmes comerciais, esses caretinhas, com início, meio e fim, porém com histórias boas e bem contadas, de boa qualidade técnica, sejam divertidos ou lacrimosos, e vocação pra blockbuster, são poucos, muito poucos. De recentes, eu incluo aí Tropa de Elite, Meu nome não é Johnny e O ano em que meus pais saíram de férias. Todos com bilheteria expressiva. Porém, de maneira geral, os filmes de apelo mais comercial são ruins, a história é fraca, os personagens são caricatos. O público mais intelectualizado que gosta de cinema nacional torce o nariz e o povão, que já não vai mesmo por conta própria, sente o cheiro do engodo, e prefere gastar os caraminguás vendo Van Damme, ou o último besteirol americano.

Já os filmes bons, que atendem a esses quesitos de apuro técnico e bons personagens, são excessivamente herméticos, alternativos, são filmes “cabeça”, filmes de arte, que não atingem o grande público. E aí nunca têm bilheteria. E toma do povo reclamar.

Eu acredito, e tenho visto, que o cinema brasileiro é bom, tem ótimos profissionais, e desenvolveu uma maneira própria de narrar suas histórias. Uma maneira diferente da maneira americana, graças a Deus, mas também isso o grande público estranha, adestrado que está pelos filmes porrada ou de efeitos especiais vertiginosos. Não acho que essas ousadias, esses filmes mais herméticos, com enredos ou narrativas menos usuais devam terminar, de jeito nenhum! Mas acho que o leque devia se ampliar, e sobretudo acho que os bons diretores e orçamentos mais generosos deviam se dedicar também ao cinema pipoca, àquelas coisas que não são nenhuma grande obra, não vão ganhar prêmio em Cannes nem em Berlim, mas vão atrair muita gente ao cinema, faturar mais. São esses filmes que sustentam a indústria e financiam vôos mais
alternativos.

Tem tanta coisa no Brasil pra ser retratada. A gente têm batido demais na tecla da realidade, da vida como ela é. Nossa filmografia retrata com abundância e realismo a violência urbana, o imaginário da favela, do futebol. Ou então reforça estereótipos regionais, sobretudo do nordestino. Eu sinto falta de poesia, de romances fortes (sem o pano de fundo mal resolvido da diferença social), sinto falta de ver na tela não só o que nós somos, mas quem poderíamos ser, quem desejamos ser, quem temos potencial para ser. O
cinema não é só espelho, ele pode ajudar a moldar a identidade de um povo também. Sinto falta de sair de uma sala de cinema, após ver um filme brasileiro, me sentindo leve, emocionada. Será que é fuga demais?

Fal:
não, meu bem, cinema foi inventado pra isso e dura 100 anos por isso: pq é uma fuga maravilhosa. e a gente precisa de fuga, não a gente eu e vc. a gente, o homem das cavernas, a socióloga mais cabeuça do universo, o tio que cata papelão e o dono do banco. precisar de fuga é inerente ao ser humano. ou, como dizia o alexandre “me consola pensar que as fantasias sexuais da mulher do George Clooney são comigo”, hahahah.

Ana Paula, de novo:

E eu vou confessar a vcs que eu nem sequer me vejo retratada na tela tantas vezes. Assim, enquanto classe média média, sabe como? Com meus sonhos de viajar nas férias, minhas mensalidades de escola, meus perrengues de trabalho. Acho que o grupo social com o qual eu me identifico só é retratado no cinema como vítima de violência, ou como malandro corrupto (numa mensagem subliminar de que eu deveria me sentir culpada da desordem social e urbana, como se meu bem-estar e eventual prosperidade fossem sempre e necessariamente fruto de uma expoliação da felicidade alheia), ou como caricatura de futilidades. Raramente eu vejo nas telas brasileiras personagens que eu posso apontar e dizer “essa podia ser eu”. E eu sinto falta disso.

(Monix, roubando descaradamente)

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