Sobre perdas

Recebi a notícia da morte de Dorival Caymmi  com serenidade. Não é que não tenha sentido a morte dele. Mas eu não lamentei. E por uma razão, ou melhor, uma lição duríssima que a vida ensinou, que é a experiência de perder pessoas prematuramente. (Eu ia dizer  ‘pessoas jovens’, mas esse é um adjetivo mais volátil do que parece, e varia muito de acordo com a nossa própria idade.) Falo de todos aqueles que morrem deixando em nós o pesar pelo muito que ficou de ser dito, vivido, compartilhado. Meu tio favorito morto aos 40 anos, um concunhado aos 37, no mesmo ano. Recentemente, o Alexandre da Fal e o Ivan da Beth. Mesmo a partida de desconhecidos ilustres porém queridos, como Cássia Eller e Tim Maia, pesaram no peito. Eu, se pudesse escolher não teria vivido nada disso, mas diante do inevitável não há alternativa a não ser aprender com ele.  Tanto sofrimento deve tem que me servir pra alguma coisa, pô. Como por exemplo,  não lamentar a partida de alguém que, como bem disse o Caetano,  completou sua vida luminosa. Claro que para familiares e amigos  íntimos a morte sempre é “viajar fora do combinado”, como diz o Rolando Boldrin. Mas a gente olha pra uma foto do Caymmi e pensa em numa trajetória que foi cumprida até o fim, numa vida que desenhou um círculo formoso e completo. O que é muito reconfortante, em especial se comparado ao desespero de uma interupção abrupta e injusta.

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Pra terminar o post de maneira positiva, eu evoco a lembrança de um show que vi da Família Caymmi, séclos atrás, no extinto Imperator aqui do Rio (alguém aí lembra?). Páreo duro se sobressair em meio a tantos talentos e vozes, mas quando Dorival entrou no palco – já do alto dos seus quase 80 anos – não teve pra ninguém. Ele fazia caras e bocas, revirava os olhinhos, parecia que estava cantado para cada um, e não pra todos. Encantou a platéia e botou todos no bolso, o danado. Um verdadeiro sedutor .

Helê

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