Mulherzinha

No fim do meu primeiro ano da faculdade, consegui um estágio num jornal em Brasília. Passei um mês hospedada na casa de uma amiga da minha mãe e aprendi, naquele curto período, o pouco que sei da prática de reportagem para a grande imprensa (conhecimento que agora ficou altamente desatualizado, visto que na época ainda usávamos máquinas de escrever). Mas devo dizer que o principal aprendizado daquele mês em Brasília foi uma lição para a vida toda, que não tem nada de profissional mas tem sido extremamente útil no meu dia-a-dia há pelo menos 15 anos.

Um dia, minha anfitriã precisou ir à oficina mecânica. De repente ela, uma mulher inteligente e segura, transformou-se numa semi-debilóide, se dirigindo aos homens num tom meio infantilizado e fazendo perguntas óbvias. Quando saímos da oficina, eu a questionei e ela me explicou a lógica por trás daquele estranho comportamento.

Quando a gente está num ambiente predominantemente machista (sempre há as exceções), como uma oficina mecânica ou uma loja de ferragens, se a mulher aparece muito senhora da situação os homens não gostam e reagem tentando colocá-lo “no seu devido lugar”, ou seja, o atendimento é pior e muitas vezes eles tentam nos enganar. Já se a mulher chegar humildemente pedindo ajuda a seu herói-salvador-do-cavalo-branco, eles se compadecem e atendem muito bem, dando todas as dicas – e quase nunca tentam empurrar peças que não são necessárias ou enganar a cliente de alguma forma.

É triste, mas funciona.

Por isso, se um de vocês me encontrar na loja de ferragens da esquina com o olhar meio idiota e travando diálogos absurdos, tipo: “moço, a minha torneira está pingando, será que teria como me arrumar aquela borrachinha, que a gente enrosca naquele negócio da torneira…” “a carrapeta? Pois não, senhora, qual a medida?” “Ah, moço, é uma tamanho meio médio, não sei, a torneira é igual àquela ali atrás, ó”… bem, não precisam me internar. É puro personagem.

-Monix-

12 Respostas

  1. Ju, como sempre, perfeito o que você escreveu – não quer reativar o blog, não?

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  2. Ah, eu também não faço a linha pin up boba de jeito nenhum. E se percebo que a coisa está ficando enrolada, chego no limite da grossura, o que infelizmente funciona.
    Ou seja, entre a claudicante e a Dilma Roussef, fico com a Dilma! :)
    E funciona, sabe? Acho até que fico com fama de meio grossa, mas quem mandou me tratar assim?

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  3. Eu sei como é isso.
    Eu sempre faço isso e sempre funciona….
    O pior é que em casa também estou fazendo… e sempre consigo uma “maozinha”pra fazer coisas chatas.
    Sabe? Eu não tô nem aí…
    O que eu quero mesmo é ser feliz…não quero ter razão…

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  4. Eu tô no DUFAS?
    Indignei-me.

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  5. Aliás, acho que se a gente der uma de boba é que eles nos enganam mesmo e nos fazem gastar mais. Se a gente pelo menos fingir que sabe do que está falando eles ficam menos propensos a empurrar peças inúteis.

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  6. Monix,

    eu uso a estratégia oposta e também dá certo. Pesquiso antes o problema e já chego na oficina falando: “O selo da caixa do carburador rompeu e está vazando água. Quero que conserte o selo ou, só se não tiver conserto, troque por um novo.” E faço questão de olhar a peça estragada, faço questão de ver se a peça nova é nova de fato, se acabou de sair de uma caixa lacrada, etc.
    Se não sei qual é o problema ou qual o nome da rebimboca, peço que me expliquem com detalhes, faço perguntas, sugiro alternativas. Nunca achei que me tratassem pior ou que me olhassem feio por isso.

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  7. Adorei! Se fazer de tontinha não dói nem um pouco e a gente poupa um tempo danado… Sou adepta desta artimanha e concordo que ela dá certo sempre.

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  8. Adorei! Se fazer de tontinha não dói nem um pouco e a gente poupa um tempo danado… Sou adepta desta artimanha e concordo que ela dá certo sempre.

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  9. Monix, jura pra mim que você não tá falando sério! Gata, vamos pensar juntas aqui: cada vez que uma mulher se imbeciliza de propósito, usando o sexismo alheio a seu favor, está reafirmando esse comportamento, está mantendo e alimentando esse machismo. Parece aquele discurso das mães de 1950, que diziam às filhas para não contrariarem os maridos, mas sim usarem seu charme e doçura para, disfarçadamente, ir conseguindo o que queriam. Isso não é só triste: é muito perigoso também. Isso é aceitar as regras do adversário. (E que fique claro aqui que não estou chamando de adversário o sexo oposto, mas sim esse pensamento machista). Eu espero sinceramente que minha filha nunca tenha que se fingir de bobinha pra ser ouvida com atenção e atendida com paciência, em qualquer circunstância que seja. Mas pra ela conseguir isso um dia, a gente não pode mais alimentar essa personagem. Nem de brincadeira.

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  10. “Tem borrachinha que enrosca na torneira? Céus!” (acho que eu ganharia o Oscar…)

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