Um filme de mulher

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Sei que quando Nora Ephron e Meg Ryan começaram a fazer, não necessariamente juntas, comédias românticas de sucesso, convencionou-se atribuir a esse gênero (sempre considerado um gênero menor, diga-se de passagem) a alcunha “filmes de mulherzinha”.

O último Woody Allen, no entanto, tem pouco de comédia, e menos ainda de romântica, e não sei se por isso mesmo, ou apesar disso, acho que posso dizer que não é um “filme de mulherzinha” – é um verdadeiro “filme de mulher”.

(A partir de agora, quem não assistiu o filme deve escusar-se de ler: contém spoilers.)

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O que torna Vicky Cristina Barcelona um filme diferente é o fato de que as mulheres estão fazendo o que os homens normalmente fazem. Cristina está vivendo aventuras amorosas totalmente inconseqüentes, buscando única e exclusivamente sua felicidade, sem pensar em amarras emocionais como filhos, casa, marido. Vicky, por sua vez, se sentia confortável com seu projeto amoroso, até que, num país estrangeiro, o conforto se torna desconforto. (Aliás, não é à toa que o filme se chama ‘Vicky Cristina Barcelona’ – ali, a viagem é mais que uma metáfora, é o próprio agente de transformação.) Os questionamentos de Vicky são todos aqueles tipicamente associados aos personagens masculinos: “não sei se caso ou se compro uma bicicleta…” Enquanto a noiva elabora seu incômodo com o compromisso que está prestes a assumir, o noivo é quem traz de volta a (incômoda) realidade: a compra da casa, os telefonemas em momentos impróprios, os amigos-casais (nunca indivíduos, sempre pares); até a decisão extrema de voar para Barcelona e casar com Vicky ele toma. Inverta os papéis e a história subitamente se tornará bem mais verossímil, pelo menos do ponto de vista cinemtográfico. Nesse sentido, o próprio personagem de Javier Bardem vai se “feminilizando” ao longo do filme, ou seja, se tornando cada vez mais emocional, enquanto Cristina, ao contrário, toma a decisão que um homem tomaria. Ela é protagonista da própria vida, ao contrário do que costuma acontecer com os personagens femininos, que de maneira geral são coadjuvantes. Há, ainda, uma terceira personagem, Judy, que funciona como contraponto a Vicky. Judy é, dos pés à cabeça, um personagem que faria sentido se fosse homem; sendo mulher, desestabiliza. Pense em todas as cenas de Judy, desde o primeiro comentário sobre Vicky (“o mestrado não precisa servir para nada, ela vai engravidar e pronto, sua vida ganhará sentido”), e imagine o marido dela dizendo ou fazendo tudo aquilo. Seria mais plausível.

Vicky Cristina Barcelona não chega a ser um filme feminista – pelo menos não segundo os critérios de Alison Bechdel, já que não contempla a terceira característica. Mas com certeza é um filme feminino.

-Monix-

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8 Respostas

  1. […] oportunidade – logo eu que, em geral, vejo tudo depois de todo mundo (e posso levar meses para ler um post do meu próprio blogue para fugir dos […]

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  2. […] Novembro Onde Vais, Isabel? – Em Portugal, me indicaram este livro da Maria Helena Ventura, sobre a vida da rainha santa Isabel. Escrito de maneira quase medieval ( só lendo para entender), mostra, além de uma versão muito interessante para o ‘milagre das rosas‘, a história da acolhida aos Templários em Portugal, pelo rei Dom Dinis, e sua transformação na Ordem dos Cavaleiros de Cristo. Um belo romance sobre a pouco conhecida (por nós brasileiros), porém interessantíssima, História de Portugal. No cinema: Vicky Cristina Barcelona […]

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  3. Ok, agora achei os números e descobri as três regras:
    1 – There must be two or more women in it,
    2 – who talk to each other
    3 – about something other than a man.

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  4. A regra citada no texto que você lincou que eu achei foi só essa:
    There must be two or more women in it, who talk to each other about something other than a man.
    Some variants include the stipulation that the women have names.
    Quais seriam as outras?

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  5. Mas você nem mencionou a Penelope Cruz? Isso é imperdoável!

    Mesmo durante o tempo de filme em que ela não aparece, sua presença marca a história a cada momento, ela é sempre mencionada como se anunciassem a chegada de um furacão. Fiquei com pena de o filme ter acabado, porque afinal de contas tudo voltou mais ou menos ao ponto de partida. Queria saber como aqueles personagens tão interessantes terminariam.

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  6. Monix, excelente análise. E não tem como não se identificar com todos os personagens, ora um, ora outro.
    Penélope Cruz está ótima, o que confirma que Allen é excelente diretor e cada vez mais surpreende.
    eu tb tomei um susto, mesmo não tendo férias como o Alex Castro 🙂
    bj

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  7. Depois eu comento.
    Segunda-feira, preguiça. Não entendi nadinha.
    zzz…

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  8. comentario avec spoilers

    eu nao posso dar detalhes no blog, mas esse filme foi assustador pra mim – pq meu verao desse ano no Brasil, tirando o fato de eu nao ser gostoso como o Bardem, foi PRATICAMENTE assim… se minha ex-mulher nao estivesse morando no Timor e tivesse vindo dormir no meu sofa, teria sido EXATAMENTE igual… menos o final, ele ficar sozinho, o tiro e tal, mas quem sabe, como ainda nao acabou, pode ser que acabe assim! o cara plagiou a minha vida! mas adorei o filme 🙂

    bem, considerando que provavelmente o filme já estava finalizado quando suas férias aconteceram, só me resta citar wilde: a vida imita a arte. bjs, monix

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