Sobre o mesmo t(r)ema

Eu gosto de me considerar uma pessoa que se adapta facilmente a mudanças. Ou, melhor ainda: uma pessoa que gosta de mudanças. Não sei se tem a ver com meu ascendente Aquário, com uma certa mania de estar sempre perto do que é novo. O fato é que gosto de pensar que fujo, sempre que consigo, do comodismo, da zona de conforto, rumando em direção ao que vai ser diferente. Claro que na prática a teoria é outra, mas estou falando de como venho construindo minha auto-imagem ao longo dos anos.
Só que agora, com a proximidade da adoção do acordo ortográfico dos países lusófonos (pelo que entendi, não há data certa para começar, mas a partir de 2008 recomenda-se que a nova regra passe a ser utilizada), estou me sentindo, talvez pela primeira vez na vida, uma pessoa antiga. Nem é antiquada: é antiga, mesmo. Minha avó, uma mulher esclarecida, diria até antenada, até hoje escreve “êle”, com esse acento circunflexo esquisito. Nunca entendi esse apego a um sinal que já era obsoleto quando eu nasci. Agora percebo que provavelmente essa mudança foi feita quando minha avó tinha, sei lá, entre 40 e 50 anos, ou seja, já escrevia desse jeito há tempo demais.
Eu posso até me acostumar com a eliminação dos acentos nos ditongos crescentes (ou descrescentes?), e é óbvio que nunca vou decorar as regras para uso do hífen (bem, eu nunca soube mesmo). Mas sinto que jamais me conformarei com a eliminação total do trema. Pô, gente, mas o trema tem uma função fonética super importante! Eu não como linguiça, e sim lingüiça! Não pago cinquenta, e sim cinqüenta! (Que, aliás, às vezes minha avó se distrai e escreve como “cincoenta”.) Já me vejo uma velhinha gagá, reclamando da “juventude de hoje em dia”, lembrando como era bom no meu tempo de outrora, e escrevendo muitas palavras estranhas com uns pinguinhos em cima do U, que meus netos nunca saberão para que servem.
Lamentável ter que me confrontar com a inexorável marcha do tempo, assim, tão cedo.

-Monix-

Publicado originalmente em 10 de setembro de 2007, no endereço antigo.

Update – Em tempo: que fique claro que eu apóio (apoio?) a implantação do Acordo Ortográfico, acho que a unificação da ortografia é importantíssima e tem um conceito muito simpático por trás, que é a integração dos países lusófonos. (Só podiam ter mantido o trema, não custava nada.)
Leiam aí o verbete da Wikipedia (pelo menos o primeiro item, sobre os antecedentes do acordo), para ter uma idéia de como a situação atual é bizarra. Então é isso, eu não sou contra o acordo; sou contra a sensação de ficar “antiga”. 😛

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