Precisão

“Navegar é preciso, viver não é preciso”

Navegadores portugueses diziam; Fernando Pessoa citou; Caetano Veloso cantou; quase ninguém entendeu. Outro dia recebi por e-mail um texto do Carlos Heitor Cony em que o cronista comete o mesmo equívoco que já vi ser cometidos por tanta gente boa: ele interpreta a palavra “preciso” como sinônimo de necessário, quando na verdade o verso ganha riqueza se interpretarmos a palavra no sentido da exatidão.

Viver não é exato. Não há bússola, balestilha, astrolábio, nada que nos diga se a direção seguida está correta. Ajustamos nossa rota às cegas, nem sempre chegamos a algum lugar. Mesmo assim, o percurso vale a pena – porque, como também dizia Pessoa:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

– Monix –

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