Da série “Bis é bão”: Cabrochas

A estação já começou. Mas assim no início vemos poucas, ainda não maduraram por completo. Eu vi uma meia dúzia outro dia, na feijoada da Velha Guarda da Portela. Mas florescem mesmo é no carnaval, as cabrochas. Uma espécie de mulher que só dá no carnaval. Não, não, eu não estou falando no sentido sacana do verbo; elas dão como frutas e flores que surgem numa certa época do ano, em certos lugares e condições específicas – e apenas dessa maneira. Negras, altas, fartas, essas mulheres chegam em partes: primeiro os seios, depois elas mesmas, e quando você pensa que acabou, chega a bunda. Poderosas, onde quer que apareçam estabelecem um raio de atração que ofusca qualquer outra infeliz que desafortunadamente esteja por perto. E quando você pensa que não é possível alguém ter uma presença tão marcante elas … sambam. Ah, elas sambam. Aquela profusão farta de cabelos, sorrisos, carne, dentes e luz evolui com leveza e graça impensáveis, a despeito do ritmo acelerado da música. E sambando revogam vários códigos e leis, incluindo a da gravidade e o nono mandamento. Os homens intimidam-se; outras mulheres as respeitam, todos as reverenciam e elas desabrocham nos bailes, nas ruas, nas escolas de samba, despertando paixões, ereções, beliscões enciumados, olhares hipnotizados. Eu já vivi esta que é uma experiência sensorial: observá-las de perto e em movimento. São uma força da natureza em ação que, acreditem, nenhum take televisivo – nem o close obsceno nem a panorâmica completa – consegue reproduzir. O maior mistério sobre essas mulheres é onde elas passam o resto do ano. Não sei se murcham ou desfolham, se são raptadas por argentinos, se permanecem disfarçadas de merendeira numa escola pública do subúrbio. Já procurei várias vezes por diferentes localidades no Rio de Janeiro – onde elas são endêmicas – e não encontrei. Mas talvez isso não seja tão importante quanto simplesmente apreciá-las em floração. Se você está no Rio, fique atento: a estação já começou.

Publicado em 7 de fevereiro de 2006,  na casa antiga.

Trilha sonora do post: ”Os passistas”, Caetano Veloso (pelo ritmo) e “É luxo só”, com Elza soares (por tudo).

Ilustração do Lan – claro, que ninguém desenha cabrocha melhor que ele.

Helê

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4 Respostas

  1. Sim, é bem verdade q o Lan evidencia muito bem nos traçados, mas peraí…ser Cabrocha é ser brasileira, ter suingue e simpatia, não necessriamente ter bunda, mas especialmente ter siricutico.

    Bjs

    Olha, eu aceito a relativização porque há negras belíssimas e portentosas que ainda assim não possuem essa presença e poder; assim como branquelas que arrasam na malemolência. Mas a minha “ideia de cabrocha” pressupõe esse tipo desenhado pelo Lan, são elas que descrevo no texto – sabendo que há variações igualmente interessantes.
    Obrigada pelo comentário, pontos de vista divergentes são sempre bem-vindos.
    Abraço,
    Helê

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  2. Eu amei. Näo vou mentir. Eu já passei por essa experiencia. Na família mesmo. Tenho duas primas cabrochas e uma tia. Fazer o que. Teria uma progenitora também se esta soubesse sambar. E da bunda restou apenas o projeto por que a propria nao veio. A escapei de ser cabrocha por que a genética pulou o meu ramo familiar. Por isso me refugio em uma montanha austríaca no carnaval. Acho que na verdade durante o ano nao aparecem por viverem com disfarce de super dona de casa, ou super enfermeira, ou escondidas nas comunidades dos GRES*(quem é carioca sabe o que significa) . Vai saber…

    * Gremio Recreativo Escola de Samba

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  3. Que post bonito, Heleninha! Da qualidade do texto ao visual da ilustração e da “diagramação”! Tem gente que aproveitou muito bem os bancos da faculdade!!!!
    Beijãozão!!!

    Eu tinha excelentes companhias nesses bancos, Serginho…;-)
    Beijo, querido.
    Helê

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  4. Bis merecido. Este post é genial.

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