Revolution was televised

Era terça-feira de carnaval e eu assistia displicentemente o Bom dia Brasil. Até ser capturada pela poderosa imagem de 20 ogãs no meio de uma bateria –  que silenciava para que tocassem os atabaques. Maravilhosa ousadia de mestre Ciça, da Viradouro, que me arrepia só de escrever. Logo depois surge a imagem do carnavalesco Milton Cunha, sambando faceiramente, de terno rosa pink e descalço, a própria imagem da descarada alegria carnavalesca.
Corta pro estúdio ao vivo e lá está ele, com dois outros carnavalescos. Sentado languidamente e ainda descalço, os pés sujíssimos (já imagino o alvoroço no estúdio). Aí a repórter, Renata Não me Lembro o Resto, resolve começar fazendo uma graça, perguntando se é melhor desfilar descalço, e Milton responde placidamente:

– Não, é que Exu me pediu, quando eu fiz minha oração pra ele na encruzilhada do Mangue com a Sapucaí ele me pediu que tirasse os sapatos e eu tirei.

Risos cúmplices (ou nervosos?) dos colegas, Renato Machado rapidamente toma a palavra, agradencendo a todos e tentando restabelecer o padrão globo de qualidade, que não está preparado para:

1) a bichona dando entrevista seriamente, de terno pink,
2) com os pés sujos à mostra,
3) falando de deuses afro-brasileiros como se fosse o Padre Marcelo falando de Nossa Senhora: naturalmente.

Tá certo, posso ter exagerado no título do post. Acontece que há muito tempo eu desisti da Revolução, assim com maiúsculas. Mas ainda vibro muito com as transgressões prosaicas, que nem parecem significar tanto, mas que causam um pequeno, breve e necessário abalo nas estruturas previamente estabelecidas. Ou pelo menos um desconforto difuso no espectador. Eu me deleitei imaginando o furdunço que isso provocou nos bastidores da Vênus Patinada, que ainda não está preparada para alguém como Milton Cunha.

Amei, querido, você arrasou.

O vídeo pode ser visto no G1, onde encontrei também uma entrevista de Milton Cunha mais longa, pouco antes do desfile, explicando sobre o pedido de Exu. No resumo sobre o desfile da Viradouro dá pra ter uma ideia do que foi a bateria da Viradouro.

Helê

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7 Respostas

  1. Uma amiga me enviou esse post por email.
    Amei!!

    Aliás, excelente blogue.

    beijos.

    Oi, Bebel, seja bem-vinda e volte sempre; a casa é nossa. Fiquei curiosa de saber quem foi a amiga que fez a propaganda 🙂
    Aquele Abraço,
    Helena

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  2. Podexá. Bjo

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  3. Ele foi um verdadeiro porta-voz do povo do santo. Muito legal!!!!!!

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  4. Ele está sempre no Sem Censura. Gosto da inteligência e do fervor que ele demonstra com as crenças particulares.

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  5. Leio o blog sempre, mas nunca comento. Amei!!!! Vou assistir pelo link.

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  6. Perdi. Mas adoraria ter visto. Amém. Porque a tolerância vai ter de prevalecer uma hora.
    Abraço.

    É possível assistir nos links no fim do post, Lili. Obrigada pelo comentário, aquele abraço.
    Helê

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  7. Rá, por essas e outras do gênero que eu AMO esse homem. E como eu disse a ele antes do desfile: Laroye, Exu!

    Rê, sifazfavoire de dar o endereço do blogue pra ele, que o elogio tem que chegar ao destinatário.
    Beijo,
    Helê

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