Para Manu & Marisa

Helê

Pedagogia de botequim

Na qualidade de uma estudante para lá de preguiçosa, sempre impliquei horrores com dever de casa. Tem muita gente que acha ótimo, quanto mais dever melhor; tem gente que cobra resultados, notas boas; tem gente que faz o dever junto com os filhos e quase enlouquece com multiplicação de frações e regras gramaticais há muito esquecidas. Eu não. Acho o fim da picada que aos quase 40 anos de idade eu precise saber como armar uma conta de dividir com dois algarismos no divisor (dividendo? sei lá) ou lembrar quantas capitanias hereditárias havia na época de Mem de Sá. Acredito honestamente no valor do conhecimento e na importância dos processos de aprendizagem, mas eu já passei dessa fase.

Mas agora, acompanhando os primeiros passos do filhote na vida escolar, começo a perceber um lado positivo na ‘tarefa’. É um passo meio simbólico – e bastante prático, também – para uma nova fase. Ao mesmo tempo em que ele se sente “crescido”, é inegável que o dever ajuda a desenvolver o senso de responsabilidade, de disciplina, e também a organizar melhor o tempo. Nessa primeira etapa, parte dele a iniciativa de responder as poucas perguntas enviadas pela professora, e peço que o deus-protetor-das-mães-estressadas me ajude a não cair na armadilha de transformar o dever de casa numa guerra familiar – como já vi acontecer com muita gente boa por aí.

De toda forma, acho que as escolas poderiam facilitar um pouco a vida das famílias. Como boa palpiteira que sou, sugiro um quase-decálogo (hexálogo? isso existe?) do dever de casa:

1) Não começarás muito cedo. Crianças do pré-jardinzinho não vão fazer um dever de casa com apostila, recortes, colagens e coisas complicadíssimas. Quem vai fazer é a pobre mãe da criatura, provavelmente às dez da noite, depois de trabalhar o dia inteiro, botar criança pra dormir, preparar lanche do dia seguinte, arrumar mochila etc etc etc.
2) Envolverás a família no processo. No momento da introdução do dever de casa na rotina escolar, a escola irá conversar sobre os objetivos de se enviar a tarefa para casa e qual o papel esperado dos pais (manter um lugar limpo e iluminado, providenciar o material necessário).
3) Não exagerarás na quantidade de deveres. Uma amiga contou que a filha de seis anos teve que fazer oito tarefas de uma só vez – demoraram três horas para terminar tudo. Pode uma coisa dessas?
4) Não enviarás dever todos os dias. Só quando se justificar como reforço de um tema trabalhado em sala, por exemplo.
5) Não darás nota para o dever feito em casa. No máximo, farás uma verificação de assiduidade (trouxe ou não trouxe, a folha estava amassada/rasgada, lembrou de escrever o nome etc). A idéia é acostumar a  criança a estudar sozinha e a aprender a organizar seu tempo. Para avaliar a compreensão da matéria, existem os testes e provas.
6) Por fim, o mais importante: mandarás tarefas compatíveis com a escolaridade da criança! O dever é para o aluno, não para os pais do aluno, né? Eu já saí da escola. Me poupem.

Monix, em momento Rosely Sayão.

(Mais do mesmo: “Fomos Maus Alunos“, do Gilberto Dimenstein e do Rubem Alves)

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