Pedagogia de botequim

Na qualidade de uma estudante para lá de preguiçosa, sempre impliquei horrores com dever de casa. Tem muita gente que acha ótimo, quanto mais dever melhor; tem gente que cobra resultados, notas boas; tem gente que faz o dever junto com os filhos e quase enlouquece com multiplicação de frações e regras gramaticais há muito esquecidas. Eu não. Acho o fim da picada que aos quase 40 anos de idade eu precise saber como armar uma conta de dividir com dois algarismos no divisor (dividendo? sei lá) ou lembrar quantas capitanias hereditárias havia na época de Mem de Sá. Acredito honestamente no valor do conhecimento e na importância dos processos de aprendizagem, mas eu já passei dessa fase.

Mas agora, acompanhando os primeiros passos do filhote na vida escolar, começo a perceber um lado positivo na ‘tarefa’. É um passo meio simbólico – e bastante prático, também – para uma nova fase. Ao mesmo tempo em que ele se sente “crescido”, é inegável que o dever ajuda a desenvolver o senso de responsabilidade, de disciplina, e também a organizar melhor o tempo. Nessa primeira etapa, parte dele a iniciativa de responder as poucas perguntas enviadas pela professora, e peço que o deus-protetor-das-mães-estressadas me ajude a não cair na armadilha de transformar o dever de casa numa guerra familiar – como já vi acontecer com muita gente boa por aí.

De toda forma, acho que as escolas poderiam facilitar um pouco a vida das famílias. Como boa palpiteira que sou, sugiro um quase-decálogo (hexálogo? isso existe?) do dever de casa:

1) Não começarás muito cedo. Crianças do pré-jardinzinho não vão fazer um dever de casa com apostila, recortes, colagens e coisas complicadíssimas. Quem vai fazer é a pobre mãe da criatura, provavelmente às dez da noite, depois de trabalhar o dia inteiro, botar criança pra dormir, preparar lanche do dia seguinte, arrumar mochila etc etc etc.
2) Envolverás a família no processo. No momento da introdução do dever de casa na rotina escolar, a escola irá conversar sobre os objetivos de se enviar a tarefa para casa e qual o papel esperado dos pais (manter um lugar limpo e iluminado, providenciar o material necessário).
3) Não exagerarás na quantidade de deveres. Uma amiga contou que a filha de seis anos teve que fazer oito tarefas de uma só vez – demoraram três horas para terminar tudo. Pode uma coisa dessas?
4) Não enviarás dever todos os dias. Só quando se justificar como reforço de um tema trabalhado em sala, por exemplo.
5) Não darás nota para o dever feito em casa. No máximo, farás uma verificação de assiduidade (trouxe ou não trouxe, a folha estava amassada/rasgada, lembrou de escrever o nome etc). A idéia é acostumar a  criança a estudar sozinha e a aprender a organizar seu tempo. Para avaliar a compreensão da matéria, existem os testes e provas.
6) Por fim, o mais importante: mandarás tarefas compatíveis com a escolaridade da criança! O dever é para o aluno, não para os pais do aluno, né? Eu já saí da escola. Me poupem.

Monix, em momento Rosely Sayão.

(Mais do mesmo: “Fomos Maus Alunos“, do Gilberto Dimenstein e do Rubem Alves)

10 Respostas

  1. […] um texto na semana passada muito engraçado, justamente sobre essa questão das tarefas escolares: Pedagogia de botequim, do blog Duas Fridas. Qual é a sua opinião sobre o […]

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  2. puxa, acho que estou com sorte :)
    minha filha está começando a carreira de dever de casa, mas felizmente a escola segue seu hexálogo todinho. lição só uma vez por semana, mínimo, relacionado ao projeto da turma. tudo de bom.

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  3. Adorei o post!!! concordo com tudo que disseste …

    Abraços.

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  4. Ah, adorei…e posso acrescentar o sétimo? Mandar para casas interessantes, bonitos, instigantes…porque todo dia ter de colorir a mônica ou o mickey, fazer cruzadinhas e outras tarefas estilo passatempo é muito, muito, chato!

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  5. […] um texto na semana passada muito engraçado, justamente sobre essa questão das tarefas escolares: Pedagogia de botequim, do blog Duas Fridas. Qual é a sua opinião sobre o […]

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  6. É por isso e por outras coisas que continuo pai adotivo dos filhos alheios. Dá menos trabalho. Rs.

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  7. A idéia do tema deve ser, eu acho, relembrar o conteúdo visto naquele dia em sala. Assim… relembrar, dar mais uma olhadinha, bem de levinho. Na escola das crianças é assim. Todo dia, bem pouquinho.

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  8. Lá em casa é uma batalha diária…

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  9. Transformar o dever de casa numa guerra familiar. eu já vi esse filme ;-)
    Ainda bem que a gente aprende.
    Assim como existem mães diferentes e escolas diferentes, eu acho que cada criança é de um jeito e reage de um jeito próprio às demandas escolares. E aí, a gente, mãe, vai aprendendo a se adaptar um pouco também, de maneira a contribuir melhor com a vida escolar do filho. Porque o nosso olhar para eles, o nosso interesse nas suas atividades e desempenho, o nosso incentivo e às vezes a nossa intervenção corretora são muito importantes pra eles, mesmo que a gente não sente pra fazer dever de casa junto.
    Adorei o hexálogo!

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  10. Maravilhoso, Monix. Vou imprimir e colar por aí. Ainda não cheguei nessa fase, mas os relatos que escuto são todos muito sem noção. Enfim, não tenho mais o que comentar, você disse tudo.

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