Passagem

Muitos anos atrás eu participei de uma celebração de páscoa realizada a partir da tradição judaica. Se não me falha a Dona Memória, aquela velha louca, para os judeus a data marca a saída do Egito e a travessia do Mar Vermelho –  passagem, Pessach.  A versão deles é ligeiramente diferente daquela que Roliúde gravou na nossa lembrança ocidental:  Charlton Heston barbudo, grave e poderoso brandindo seu cajado e sendo atendido por Deus mais rápido que num SAC. Não, na história que me contaram naquele dia, ao chegar às margens do Mar Vermelho, sem poder voltar por ter um exército no seu encalço, o povo desesperou-se, mas   uma pessoa jogou-se no mar com nada além da fé. Rezou ao Senhor pedindo que Ele os ajudasse e atirou-se ao mar – sem saber nadar, sem saber o que aconteceria, sem garantia alguma; apenas com fé. E segundo a tradição judaica foi a fé dessa pessoa que salvou a ela e aos seus; foi a fé que abriu o mar para que o povo passasse.

A mim encanta essa versão. Portanto, sugiro que você cultive sua fé, seja ela qual for.

E boa passagem.

Helê

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Ainda sobre mudança

Helê


Segunda-feira, Abril 09, 2007


Foto: Guia da Semana

Quinta-feira passada fui assistir à peça Renato Russo, um monólogo com o ator (e produtor do espetáculo) Bruce Gomlevsky. A peça está em cartaz no Rio pela segunda vez. O problema é que eu tenho um certo preconceito com esse tipo de dramaturgia, ou seja, peças que contam a história de celebridades, ou, sei lá, o que poderíamos, talvez, chamar de teatro de não-ficção(?). Teatro em geral me agrada, tanto o teatrão tradicional quanto montagens-experimentais-super-cabeça. O único gênero que não me atrai muito é esse. Pois bem: há alguns meses fui, meio reticente, assistir A Alma Imoral (outro monólogo, desta vez adaptado de um livro mezzo teológico/mezzo filosófico do rabino Nilton Bonder), e não só adorei como achei uma das manifestações culturais mais originais que vi no ano passado. Então, a partir dessa primeira lição de humildade (aprender a não julgar a coisa antes de conhecer a coisa), lá fui eu à peça do Renato Russo, embora com baixas expectativas a respeito do que encontraria.
Em primeiro lugar, fiquei impressionada com a interpretação do Bruce Gomlevsky. Mais um preconceito que tive que deixar de lado: costumo implicar com caracterizações muito “ao pé da letra” quando se trata de personagens reais. Mas o que acontece no palco é quase uma incorporação. A voz do Renato Russo é muito difícil de reproduzir, ele cantava de um jeito estranho, que talvez algum leitor que conheça teoria musical possa explicar, mas para meus ouvidos e cordas vocais leigos a impressão que dá é que ele muda de tom no meio da música, dificultando à beça a imitação. Fora isso, Renato Russo era um homem com um tipo físico muito marcante, trejeitos próprios, um jeito de falar muito particular. E há momentos no espetáculo em que quase esquecemos que quem está ali não é ele e sim um ator representando seu papel.
Outra coisa que me agradou muito foi a ausência de didatismo, a opção por não entregar tudo já digerido ao público, a tênue oscilação entre mostrar os fatos a vida de um ídolo de pelo menos duas gerações de brasileiros e um relato altamente subjetivo sobre a energia que o motivou a ser o que foi. A peça não é uma historinha começo-meio-fim. É uma representação quase poética da vida de uma pessoa incomum, e, por isso mesmo, intensa, explosiva, incomparável.
Por fim, foi uma delícia reviver, através da trilha sonora afetiva, diferentes momentos da minha adolescência, que foi embalada, junto com outras bandas, pela poesia roquenrou da Legião Urbana
Esta foi a primeira vez que a família Manfredini autorizou uma montagem sobre a vida de Renato Russo. Dá pra entender o porquê.

-Monix-

Para mudar é preciso dar o primeiro passo

Essa semana fui com o Cláudio Luiz assistir à pré-estreia de Divã, filme baseado no livro da Martha Medeiros. À primeira vista, pareceria tratar-se de mais uma comédia água-com-açúcar, que tanto poderia estar na telona do cinema quanto na TV logo após o jogo do campeonato brasileiro, na mesma linha do último grande sucesso nacional de bilheteria, com astros globais, humor rasteiro e personagens-clichê na linha de frente.

Mas não é nada disso.

Divã é uma comédia. Mas seu humor se aprofunda de uma forma bem sutil, chegando a ser leve. Divã tem astros globais. Mas foge do óbvio e aposta, por exemplo, no talento cômico de uma Alexandra Richter, escada perfeita para o brilho de Lília Cabral, fascinante como a personagem principal, Mercedes. É a Lília que cabe o desafio de interpretar uma mulher madura, casada, com filhos adolescentes, e torná-la charmosa o bastante para que seja verossímil o jogo de sedução que se arma entre ela e os personagens interpretados por ninguém menos que Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond. (É claro que a vida real as coisas não são, digamos, tão generosa assim, mas, pessoal: é um filme, certo?) Divã tem personagens-clichê (o casamento morno, a amiga perua, o marido galinha). Mas todos eles têm diversas camadas, transcendem o estereótipo, mostram atitudes e emoções que muitos de nós já tivemos ou vimos de perto.

diva-almoco1O Cláudio Luiz acha que o final poderia ser diferente. É verdade. A solução que ele apresentou sem dúvida seria mais simpática. Mas, assim como na vida, o filme que temos nunca é o filme que desejamos. O que não necessariamente é uma coisa ruim.

A mudança é o tema central da história. Uma mudança interna que provoca, como um efeito-cascata, muitas mudanças no mundo ao redor. Exatamente como aconteceu e acontece, todos os dias, com as pessoas de verdade. Numa época em que tantas mudanças se anunciam, nada melhor que aprender a rir delas, e a refletir sobre elas.

-Monix-

Calendário – sábado (à noite)

Quando o sol do último dia
Ameaça se despedir
É que o povo põe uma roupa
E sai prá se distrair…

Voltando pra casa ainda há pouco, no comecinho da noite, e já cruzando com gente na rua saindo montada, esperando alguma coisa do sábado à noite – como todo mundo – lembrei dessa. Querendo ouvir,  tá lá no bom e velho Dufas Dial.

Helê

Estrofe perfeita

Let me wake up in the morning
To the smell of new mown hay
To laugh and cry, to live and die
In the brightness of my day

Skyline Pingeon, Sir Elton John

Helê

Para Manu & Marisa

Helê

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